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Património
Natural
O património natural ou paisagístico, existente dentro das fronteiras
geográficas do nosso Concelho, poderá ser classificado com os mais
diversos adjectivos, consoante o ângulo de observação e o grau de
sensibilidade do observador para apreender as belezas da natureza e
comungar da obra do Criador.
Com efeito, a configuração
do solo pampilhosense é bastante acidentada, com duas cadeias orográficas
principais, orientadas no sentido Nordeste > Sudoeste,
e outros relevos secundários, no sentido Sul > Norte:
A primeira, e mais
altaneira, começa no Picoto de Cebola (1418 m), Silva (1114), Rocha
(1190), Decabelos (1052), Caveiras (1029) e Malhadas (1000); a segunda,
inicia-se próximo das Minas da Panasqueira, com a Serra do Chiqueiro
(1086), Armadouro (735), Cabeça Gorda, junto de Gavião (721), Urra
(794), Vale Pereiras (772), Murado (742) e Travessa (507).
Perpendiculares àquelas
duas cordilheiras, elevam-se as formações rochosas e escarpadas, de
natureza quartzítica, atravessando os Rios Zêzere e Unhais, em gargantas
apertadas: uma, entre Dornelas e Porto de Vacas, com a Serra do
Machialinho (737) e os Penedos de Unhais (882); a outra, começa próximo de Janeiro de Baixo, com a Serra da Raposa (610),
Penedos de Santa Luzia (934), Serra do Vidual (944), Batouco (1119) e
Mata, mais conhecida por Penedos de Fajão (902). Mesmo no limite
ocidental do Concelho, e orientadas no mesmo sentido (Sul>Norte), temos
as Serras de Veirinho, próximo de Coelhal (620) e Telhada
(618), dando ligação a Malhada, extremo da primeira cordilheira
mencionada. O rol das elevações completa-se com o Alto da Castanheira
(1071), próximo da povoação do
mesmo nome.
Quanto à bacia hidrográfica,
formada por rios e ribeiras, que com os seus caudais cavaram vales
profundos, temos: A
Norte, o Rio Ceira, que na maior parte do seu curso serve de linha divisória
concelhia, tendo como afluentes, na margem direita a Ribeira da
Castanheira, e na margem esquerda as de Ceiroco e Ceiroquinho;
A
Sul, o Rio Zêzere, que serve de limite desde
Dornelas do Zêzere, até Padrões, com uma pequena excepção –
o enclave do concelho de Oleiros, que vai das Brejas do Barco até às
proximidades de Sobral Magro. Não há ribeiras dignas desse nome a
assinalar.[1] Dado o declive das elevações, são raras as parcelas aráveis de alguma dimensão, designadas por várzeas e lameiros, situadas nas margens dos principais cursos de água, destacando-se as de Ponte de Fajão, Mata e Cavaleiros, no Ceira,; as de Meãs, Aradas, Unhais, Praçais e Carvalho, no Rio Unhais; e as de Dornelas, Porto de Vacas e Janeiro de Baixo, no Zêzere.
Mas é precisamente desta
variedade e irregularidade geográfica que deriva a
beleza do nosso património natural, comparada com a monotonia das
regiões planas, cansativas para a vista. E os nossos quadros paisagísticos
não são estáticos mas alteram-se, sofrendo constantes metamorfoses e
embelezando-se, consoante a época do ano.
Aqui, a Albufeira do
Cabril, reflectindo o casario das aldeias que orgulhosamente disputam o título
de “Varandas do Zêzere”,
e desenhando caprichosamente, com as linhas dos seus contornos, figuras
geométricas perfeitas e quadros de rara beleza, à espera de um pintor
que os imortalize na tela.
Ali, um maciço rochoso,
escarpado, recortando o azul
celeste do firmamento, de
acesso difícil, habitado por águias,
gaviões e milhafres, que lá criam suas proles, ao abrigo dos predadores
humanos.
Além, uma encosta
verdejante, salpicada de cambiantes de cores claras e escuras, consoante a
incidência dos raios solares e o revestimento vegetal.
Acolá, a albufeira da
Santa Luzia, espraiando-se pelas reentrâncias do Vidual e da Malhada do
Rei, e banhando os pés a Unhais, em cujo fundo jazem as ruínas de Vidual
de Baixo e os esqueletos das quintas de Aziral e Calvos, a clamar contra
as injustiças e espoliações de que foram alvo os seus humildes e
desditosos proprietários.
Depois, ladeiras e
cumeadas, com portelas, seladas e quebradas, dando passagem de um vale
para outro, locais em que, segundo a lenda, se reuniam as “bruxas”
com o mafarrico, nas suas danças e andanças da meia noite feiticeira.
Lá mais longe ainda,
escondida entre matos e arvoredos, que abrigam parques de merendas e
recantos por descobrir, a Albufeira do Alto Ceira, cujas águas se escoam
pelo semi-ignorado túnel até Santa Luzia, donde outro túnel mais
pequeno as desvia para moverem o gerador da Central do Esteiro. A cada passo, topamos com um recanto paradisíaco, com a água do ribeiro a sussurrar, em cujos charcos pequenas rãs se exercitam em movimentos graciosos, e nos combros ramagens pendentes, em que passarinhos constroem seus ninhos e trinam deliciosos cantos.
Ali, uma nascente de água
cristalina e fresca, correndo livre
e incessantemente para
dessedentar nativos e viandantes, nas tardes cálidas de Verão,
em contraste com a secura da planície e a míngua
pública do “precioso líquido”, por
muitos países da Europa, acessível apenas em garrafas nos supermercados.
E se pararmos, por
instantes, num dos diversos miradouros, os nossos olhos deleitar-se-ão
com panoramas lindíssimos: -
no do Cristo Rei, a Vila da Pampilhosa e o vale do Rio Unhais; -
no de Santa Luzia, a
suavidade da albufeira, para
um lado, e a agressividade dos penhascos envolventes de Vale Grande, para
o outro;
-
no de Dornelas, esta progressiva sede de freguesia e Machial à
esquerda, e o Alqueidão e as curvas do Zêzere, à direita;
-
no da Portela de Unhais, para um lado, a Ribeira do Pisão, com as
povoações da Póvoa da Raposeira, Seladinhas, Portas do Souto, Adurão e
Carregal, a escorregar pela encosta, do outro, Unhais, Aradas e Meãs,
abrigadas do vento norte pelas maiores altitudes do Concelho;
-
no de N.S. da Guia, a Ponte de Fajão, orlada pelo Ceira, descrevendo um semi-círculo, Gralhas e todo o Vale do Ceira,
até à Covanca.
E muitos outros poderiam
ser acrescentados à lista, designadamente o mais soberbo de todos, a
construir (com os necessários acessos), no Picoto de Cebola, donde se
desfrutam quadros raros num vastíssimo horizonte, desde a Serra da
Estrela a Castelo Branco e Pedrógão, e desde a Serra da Lousã até ao
Buçaco e Caramulo. Dizem que, em condições atmosféricas propícias, se
vê o próprio mar da Figueira da Foz.
Como se vê, é muito rica a nossa Serra, ao longo de todo o ano.
Agora, atmosfera
luminosa, horizonte amplo, permitindo descortinar com nitidez vales e
outeiros, em que ecoam sinfonias de cigarras, melros e cotovias.
Logo, firmamento
carregado, nuvens escuras e medonhas, despejando sem clemência chuva
diluviana, que faz transbordar arroios e ribeiros, arrastando na passagem
os toscos e frágeis pontões.
Hoje, tapetes
ornamentados de flores amarelas, brancas, vermelhas e lilases, estendidos
pelas boiças e vertentes, a
perder de vista, em que abelhas e outros insectos, numa azáfama de vai
vem, sugam e armazenam os néctares.
Amanhã, caminhos
desertos e flora adormecida, com árvores despidas e
manchas de folhas amarelas, cobrindo o chão e rodopiando com o
vento.
Não raras vezes, na estação
fria, um manto branco, cobrindo montes, telhados, ruas e caminhos.
No nosso património natural inclui-se uma flora rica e variada, constituída por inúmeras espécies: a carqueja, a esteva, a giesta, o magorim, a moita, o rosmaninho, o sargaço, o tojo e a urze (ou queiró), etc., que são, no conjunto, o mato, de nascimento espontâneo, que cobre encostas e outeiros, dum extremo ao outro do Concelho; diversos arbustos, como o ervideiro, o azereiro, etc.; depois algumas árvores lenhosas, como o álamo, a faia ou acácia, a azinheira, o pinheiro, o sobreiro, etc.. O eucalipto, introduzido na Serra, nos últimos tempos, é de plantação e não espontâneo. Por fim, vêm as numerosas árvores de fruto, plantadas pelo homem, entre elas o abrunheiro, a ameixieira, o castanheiro, a cerejeira, a ginjeira, a laranjeira, a macieira, a nogueira, a oliveira, o pessegueiro, etc.. Quanto à fauna, ela é também muito variada. Dentro das espécies cinegéticas, temos o coelho, a lebre, a perdiz, a rola, o javali, etc. Depois vêm a raposa, o gato bravo e o lobo (mais raro, desde que desapareceram os rebanhos). No domínio das aves, uma infinidade delas povoam os nossos vales e encostas: a águia, a carriça, a coruja, o corvo, a cotovia, o cuco, o gaio, a lavandeira, o melro, o mocho, a noitibó, o tentilhão, o tordo, etc., cujos ninhos, durante a nossa infância, procurávamos nas árvores e sob o mato.
Nos
nossos rios, ainda não poluídos por resíduos industriais, é possível
pescar o barbo, a enguia e a truta. Quanto aos animais domésticos, com o evoluir dos tempos, alguns desapareceram e outros para lá caminham. Foi o caso dos bois e das muares, indispensáveis aos trabalhos agrícolas e ao transporte de mercadorias, pelas veredas íngremes. Até
meados do século passado, faziam parte do quotidiano das aldeias
serranas: o boi e o cavalo, o burro e o macho/mula, o cão e o gato, a
galinha e o pato, a cabra e a ovelha, e o porco. Com
a alteração do modo de vida das populações serranas, uns tornaram-se
dispensáveis e outros vão diminuindo, até se extinguirem, tal como vai
já acontecendo aos próprios aglomerados, de menores dimensões. As imagens que se seguem, procuram ilustrar e complementar o que atrás dissemos sobre o nosso património natural. [1] História do Regionalismo Pampilhosense, |