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(Actividades, Usos, Costumes e Tradições) 
 
1.Agrícolas      2.  Pastorícia     3. Actividades artesanais
            Antes de iniciarmos a enumeração dos diversos elementos do nosso Património Cultural, façamos algumas reflexões sobre o conceito ou conceitos de Cultura. 
            Em qualquer dicionário ou enciclopédia, vamos encontrar definições simplistas do termo, como “conjunto de conhecimentos adquiridos por alguém”,  “estado de quem tem desenvolvimento cultural”,  “conjunto de qualidades e defeitos básicos, de caracteres que definem um povo”, etc..            Mas o significado de Cultura é muito mais vasto. Muitos  estudiosos se têm debruçado sobre o tema e formulado conceitos mais abrangentes, como:
Cultura é o conjunto de estruturas sociais e das manifestações artísticas, religiosas e intelectuais, que definem um grupo ou uma sociedade”; 
Cultura é o conjunto de ideias, conhecimentos, técnicas e artefactos, padrões de comportamento e atitudes que caracterizam um grupo humano”;  
Cultura é o processo dinâmico de afinar o intelecto e a sensibilidade, de apurar o senso crítico, de intensificar a faculdade de bem ajuizar sobre as obras de arte, da literatura, da ciência, e ainda requintar a urbanidade para com o próximo”; 
“ A Cultura  está contida e exprime-se no conjunto das obras de filosofia, literatura, música, pintura, escultura, arquitectura, nas ideias científicas, na religião, etc.”;
“ A Cultura revela-se nas concepções do mundo e da vida que o homem exprime, através das obras literárias e artísticas, na filosofia, na religião, na música, no direito, na política e nas meditações sobre a ciência e as técnicas”1. 
            Há quem confunda  Cultura com Civilização, mas embora ambas revelem o homem e nas duas ele se projecte, encerram conceitos diferentes. A primeira está mais ligada ao  ser  e a segunda ao  ter.
            A Civilização, que vem de “civis, civilis”, implica o esforço colectivo dos homens, no sentido de se apoderarem das técnicas   e porem ao seu serviço os  recursos que elas dominam. 
             Para Serafim da Silva Neto,  filólogo brasileiro, elas distinguem-se do seguinte modo:
·         A cultura é rural, a civilização urbana;
·         Uma é isolada, a outra está em contacto com todo o mundo;
·         A cultura é provinciana, a civilização cosmopolita;
·         A primeira é pré-letrada, a segunda, letrada;
·         A cultura é conservadora, a civilização inovadora. 2
 
Concluindo, verificamos que o Património Cultural Pampilhosense abrange todas as actividades e manifestações da vida de nossos antepassados, desde os tempos mais recuados até ao presente, incluindo utensílios, alimentação, vestuário, usos, costumes, tradições, invenções, crenças e práticas religiosas, etc.. Um campo vastíssimo,  que   vamos tratar  por subtítulos, para diminuir o número das inevitáveis omissões.
 
A.  Actividades 
Até meados do Século passado, a vida dos serranos decorria em torno das actividades agrícolas, porque, não havendo  empregos nem outros meios de ganhar dinheiro, viviam quase exclusivamente do  cultivo da terra, extraindo  dela os alimentos necessários à sua subsistência. 
Como o solo era pobre,  exigia trabalho aturado de todo o agregado familiar, ao longo do ano, com muito suor e  sacrifícios sem conta. Não havendo fertilizantes químicos, a produção agrícola dependia da pastorícia, que além de outros proventos (de que falaremos mais adiante), fornecia o estrume indispensável para que a terra produzisse alguma coisa. 
Assim, os nossos pais e avós passavam os seus dias a apascentar os rebanhos, a cavar e lavrar a terra, a semear os cereais, hortaliças e pastos, a sachar as ervas daninhas, a regar, colher, transportar, secar e guardar o produto das colheitas, de harmonia com o calendário agrícola e as condições climatéricas, que naqueles tempos respeitavam o suceder das Estações. 
Vejamos os ciclos dos diferentes produtos, e o calendário das  tarefas a executar, que variava conforme a terra fosse de sequeiro ou de rega, e ainda com a localização mais soalheira ou mais fria. 
Comecemos pelo ciclo do milho,  cereal originário da América e trazido para a Europa, e consequentemente para Portugal,     pelos nossos Descobridores, no Séc. XVI, tornando-se a partir daí o cereal mais cultivado nas Beiras e na Serra. 1 
a. Ciclo do Milho:
  Abril/Maio
  •  
    espalhar o estrume sobre a terra;
  •  
    cavar ou lavrar , enterrando o estrume nos regos,  como fertilizante;
  •  
    semear, pondo grão a grão ou espelhando-o sobre a terra:
  •  
    gradar ou alisar a terra, para tapar a semente;
  •  
    1 semana depois, o milho é nascido;
  •  
    1 mês depois,  desbastar o milho, arrancando os pés       que estejam demasiado juntos;
  •  
    abrir os regos, paralelos e perpendiculares, para a rega;
  •  
    limpar e vedar as levadas, por vezes com quilómetros, e construir ou reparar as represas;
  •  
    regar, com intervalos máximos de 8/10 dias, durante 3 meses;
  •  
    sachar as ervas que entretanto nascem pelo meio, arrancando à mãoas que estão junto dos pés de milho, para não afectar as raízes;
  Julho/Ago.     
·         esbandeirar, e secar as bandeiras, que ficavam para o dono dos bois que  efectuaram a lavra da terra; 
 Ago/Set          
·         desfolhar, pendurando os atados no próprio canoco, para secarem; 
 Set/Out          
·         colher as espigas e transportá-las nos carros de bois, com sebes, ou em cestas e canastrões, à cabeça e às costas;
·          estonar, ficando as tonas para o dono dois bois que transportaram as espigas;
·         debulhar, com a ajuda dos vizinhos, em serões animados, utilizando paus ou viros; 
·         secar o grão, no estendedouro, durante uma semana, protegendo-o da humidade nocturna e voltando a expô-lo ao sol, de manhã;
·         recolher o grão  na arca;
  Fabrico do pão  (broa)  
·         moer o grão no moinho comunitário, para onde era transportado em sacos ou taleigos (sacos de pele de cabra curtida);
·         transportar a farinha do moinho para a arca, até chegar a vez de utilizar o forno;
·         peneirar a farinha, para separá-la do farelo;
·         amassar a farinha, com água morna;
·         fintar ou levedar a massa, durante cerca de 1 hora;
·         aquecer o forno, com lenha previamente carregada dos montes;
·         raer (varrer com o rodo) as cinzas e brasas para junto da porta;
·         tender as broas e metê-las no forno com a pá, para cozerem durante cerca de uma hora;
             A cozedura, de 12 a 15 broas , conforme a família, dava para 8/10 dias. Se se acabava antes de poder cozer de novo, pedia-se uma broa emprestada à vizinha, com retorna posterior. 
b. Ciclo do Centeio 
            O centeio era semeado nas encostas, onde cresciam matagais, e que não tinham aptidão para outras culturas.
            O calendário das tarefas era o seguinte: 
Jan/Mar
·         cavar  a testada e cortar o mato e arbustos, estendendo-os em camadas por toda a superfície, para secarem durante o Verão; 
Out.
·         Queimar a lenha seca, para fertilizar a terra com as respectivas cinzas, e depois semear, espalhando o grão; 
Jun.
·         Ceifar o centeio, fazer e atar os molhos, com nagalhos de giesta, e transportá-los em carros de bois ou às costas, para junto da eira, formando  os rolheiros  (ou medas), com as espigas voltadas para dentro. A propósito, havia o ditado de que “pelo S. João chega-se o serôdio e o temporão”; 
Jul/Ago
·         malhar  o centeio, com duas filas de homens, frente a frente, empunhando e batendo com os manguais, que eram formados por uma vara delgada e comprida, e outra curta e mais grossa, chamada pirto, ligadas por uma correia;
·         separar a palha do grão, por meio de forquilhas;
·         secar e moer  o grão de centeio, como se descreveu para o milho;
·         aproveitar o colmo (palha menos moída com as malhadelas), para fazer nagalhos para atar os molhos de feno e outros, e também fazer abanadores;
·         aproveitar a palha miúda para encher as enxergas (colchões).
 
 
c. Ciclo do Linho
 
            No tempo dos nossos avós não havia lojas de pronto a vestir, nem meios pecuniários para comprar camisas, toalhas e lençóis. Por isso, recorriam à cultura do linho, nas terras de melhor qualidade e com abundância de água.
 
Abr/Mai
·         cavar e preparar a terra, semear e regar durante três meses; 
Ago
·         arrancar;
·         ripar, no ripanso ou ripador, para tirar a baganha com a semente (depois seca ao sol para esta sair);
·         remolhar na água, durante 4/5 dias, com pedras em cima dos molhos, para não boiarem;
·         1ª seca, durante dois dias;
·         2ª remolhadela, durante mais 4/5 dias;
·         2ª e última seca;
·         maçar, separado em “mãos cheias”, e batido com maço, sobre uma pedra;
·         tascar, também às “mãos”, na tascadeira, instrumento tosco de madeira, com dois pés e a ponta apoiada na parede;
·         espadelar (vulgo “espadanar”), com a espadela de madeira sobre um cortiço, para separar a estopa;
·         sedar ou assedar no sedeiro, para o tornar macio e separar a estopinha;
·         fiar com a roca, donde vão saindo as “maçarocas”;
·         fazer as meadas no argadilho (ou sarilho);
·         fazer a barrela  das meadas, com água quente e cinza, e proceder à sua cozedura no forno, em caixas de madeira, barradas com bosta de boi;
·         lavar as meadas na ribeira, e pô-las depois a corar e secar;
·         2ª barrela com água quente;
·         dobar na dobadoura, donde vão saindo os novelos;
·         tecer  no tear, de cujo tecido são depois feitos lençóis, toalhas e camisas, que “duram uma vida”.
 
 
Lavagem da roupa
 
      Vem a propósito referir que, naqueles recuados tempos, à falta de sabão ou de recursos para adquiri-lo, as mulheres
 
serranas recorriam muito às barrelas para o tratamento da roupa.
      Geralmente a barrela era feita com água quente, em pequenas dornas ou celhas, com farinha, urina e borras de azeite. Depois lavava-se a roupa na ribeira e punha-se a corar. Seguia-se uma 2ª barrela, só com água quente e mentrastos (erva odorosa), de um dia para o outro. E depois de uma última lavagem, ficava bem branca e cheirosa.
 
d. Ciclo dos Vegetais
 
·         A batata
A batata é originária dos Andes e foi introduzida na Europa pelos Espanhóis, em 1534. Alguns países extraem dela álcool carburante, e outros, um tipo de aguardente, designado “schnaps”.
A batata  é semeada em Abril, depois de estrumada e cavada a terra. Demora  três meses a criar-se, exigindo sacha e regas periódicas;
 
·         A hortaliça
As couves, os nabos, as alfaces, as cebolas e os alhos são semeados em Agosto, na terra das batatas. Como não havia onde comprar os pés para dispor, guardava-se a semente de uns anos para os outros;
 
·        0 feijão
O feijão rasteiro era semeado pelo meio do milho, e o trepadeiro, em recantos com canas e paus para se apoiar.
 
e. Ciclo do Feno
 
Ago
·         A erva é semeada pelo meio do milho, em terras com abundância de água, designadas por “lameiros”, sendo os canocos (caules do milho)  cortados, após a recolha das espigas;
 
Out/Fev
·         Durante o Outono/Inverno,  serve de pastagem para o gado;
 
Mar/Abr
·         Na Primavera deixa-se crescer e ceifa-se , com a foice ou a gadanha;
 
·         Depois de secar três a 4 dias, ata-se em molhos, que são guardados no palheiro, para alimento do gado, nos dias de nevão e tempestade
 

 
f. Ciclo da Castanha
 
            A castanha desempenhou um papel importante na alimentação das gentes da Serra, principalmente antes da divulgação da batata e do milho.
 
            Dum extremo ao outro do Concelho, por vales e encostas, existiam muitos soutos, alguns com várias dezenas de árvores centenárias, hoje a caminho da extinção, se não houver novas plantações. Persistem ainda alguns exemplares, a amenizar as tórridas tardes de Verão com a sua sombra amiga e refrescante.
 
            Conforme refere o ditado  o varejão de S. Simão (28 Out.) prometeu castanhas aos Santos, ou apanhadas ou varejadas”, a apanha do fruto começa em fins de Outubro, princípios de Novembro, à medida que os ouriços vão ficando amarelos e vão abrindo.
 
             Parte delas eram comidas assadas,  nos tradicionais magustos nas hortas, dando ensejo a alegres convívios entre pessoas de todas as idades, e nos assadores de barro, em casa, entre família. Outras eram cozidas, servindo de complemento da parca refeição, ou de sobremesa.
            Quem colhia maior quantidade, secava-as no caniço (forro da cozinha com ripas), durante cerca de 3 meses, tendo o cuidado de as mexer e revolver, de quando em quando, para apanharem calor por igual. Depois eram pisadas com os pés, num canastrão, para largarem a casca, e peneiradas ao vento, para separar as impurezas. E ficava assim a castanha pilada, dada aos miúdos como guloseima, trincada pelos que tinham melhor dente, e cozidas só com água ou com um pouco de leite – o caldudo.
 
            Também aqui se manifestava a solidariedade aldeã, pois os donos dos soutos, a partir de certa altura, comunicavam às famílias que não tinham castanheiros que podiam ir fazer o     rebusco”, isto é, apanhar as castanhas que sempre ficavam escondidas debaixo da folhagem, ou no mato, ao saltarem para mais longe, quando se desprendiam dos ouriços.                                        
 
 
g. Ciclo do Azeite
 
            A oliveira  é originária da Síria e Líbano e terá sido trazida para a Itália, Espanha e Portugal pelos Fenícios, de modo que no tempo dos Lusitanos e dos Romanos já aqui era cultivada extensivamente. Desenvolve-se mais nas encostas soalheiras e terrenos abrigados dos ventos. 1
 
            O azeite teve grande importância na vida das populações serranas, sendo utilizado para temperar os alimentos e também na iluminação,  queimado nas típicas candeias e lanternas de azeite. Veio até aos nossos dias o seu uso nas lamparinas das igrejas e capelas, para alumiar o Santíssimo.                              Para o efeito muitos devotos faziam oferta de alguns litros do sagrado combustível, após  a colheita, e casos havia, por exemplo na freguesia de Unhais-o-Velho,  em que as Irmandades religiosas possuíam azeite próprio, fornecido por oliveiras que tinham sido doadas por  almas caridosas.
 
            Vejamos o trabalho requerido e o longo  percurso da produção do azeite:
 
·         cava e fertilização  da terra magra dos socalcos;
·         poda e limpeza, de dois em dois anos;
·         floração, entre Abril e Junho;
·         apanha da azeitona, em Novembro e Dezembro, por varejo e com escadas de madeira, estreitas e compridas, com 10 a 15 lanços;
·         transporte da azeitona, em cestos ou sacas, às costas ou em carros de bois;
·         limpeza, para separação das folhas e outras impurezas;   
·         armazenamento, nas tulhas, até ir para o lagar;
 
Depois seguem-se as complicadas operações, nos lagares, engenhos rudimentares e artesanais, movidos a água, cujo funcionamento exige alguma perícia e experiência, por parte do lagareiro e seu ajudante, na execução das necessárias diligências:
 
·         colocação  da azeitona no pio, recipiente grande, de forma cónica, no qual gira a galga, mó vertical que esmaga e mói a azeitona, transformando-a em bagaço;
·         colocação do bagaço nas seiras e sobreposição destas na prensa;
·         movimentação da vara, por meio do fuso (parafuso sem fim), pressionando as seiras, para que o azeite saia e escorra para a tarefa;
·         preparação da fornalha, para fornecimento de água quente através da caldeira;
·         escaldão do bagaço, com água quente, para retirar dele a máxima quantidade de azeite;
·         sangria da tarefa, para saída da água, ficando só o azeite;
·         medição e acondicionamento do azeite, em odres, e transporte destes para casa;
·         guarda do azeite, na loja, em grandes potes de barro, vidrados.
 
Entretanto, e durante os dois meses de funcionamento dos lagares,  tinham ali lugar as conhecidas tibornadas, banquetes de bacalhau com hortaliça, abundantemente adubados, e outras iguarias, pretexto para saudáveis convívios de famílias e de amigos.
 
 
            Encerramos o ciclo do azeite, com a transcrição de um expressivo soneto:
 
Era um lugar fraterno o do lagar                  
Do seu rodar contínuo, sem parar,
Alimento e vida dele surgia...
Que no Inverno a luz nos acendia.
Tarefa infinita e divinal,
Empreendida com amor acrisolado.
Dela brotava o azeite, qual cristal,
Raio de luz, diamante imaculado.
 
Em certas noites surgiam as “tibornas”
E a fornalha tornava as manhãs mornas,
Era transcendente a sua acção...
 
Que, vivida pelo povo, intensamente,
Dela tirava o provento, alegremente,
E lhe enchia de amizde o coração!  1
 
 
h. Ciclo do Vinho
 
            A cultura da videira é muito antiga, vindo do tempo dos Gregos e Romanos. Exige terrenos areno/argilosos e clima seco – tropical ou temperado. Teve maior desenvolvimento, depois de descoberta a poda, no Séc. VI a. C.,   e hoje é cultivada nos cinco Continentes. 2
 
            Na Serra, não existem vinhas extensivas, como no Douro, Beiras e Alentejo, predominando os bacelos nas paredes dos minifúndios e em pequenas latadas.
            No entanto, o serrano tem um certo orgulho na “sua produção vinícola”, para consumo próprio, e faz questão de convidar os amigos para a “abertura do pipo”, e para libações periódicas na adega, acompanhadas de petiscos a puxar por mais uma caneca.
 
 
A produção do vinho passa pelas seguintes fases:
 
·         poda das videiras, em Janeiro e Fevereiro, conforma a zona;
·         cura, com sulfato de cobre, mais que uma vez, durante o período de crescimento e maturação;
·         desfolhagem, removendo algumas folhas, para possibilitar a exposição dos cachos à luz solar e facilitar o seu amadurecimento;
·         vindima, em Setembro e Outubro;
·         transporte das uvas para as adegas, em cestas à cabeça, canastrões às costas, ou em carros de bois;
·         colocação das uvas nas dornas,  e seu esmagamento com os pés (>vinho doce);
·         fermentação  do vinho, durante uma semana;
·         transferência do vinho, da dorna para as pipas e pipos;
·         aproveitamento e transferência do mosto, para os alambiques (de cobre), e fabrico de aguardente bagaceira, por destilação.
 
 
 
 
            Como referimos atrás, a agricultura estava dependente da pastorícia, para o fornecimento do estrume, de modo que quem tinha terras de cultivo, possuía também uma “cabrada”, cujo número de animais variava com as necessidades e posses, indo de 20/30 até 60/80, nas famílias mais abastadas.
 
            Quando as propriedades  estavam dispersas, em cada núcleo existia um curral, utilizado pelo rebanho, em sistema rotativo, durante o período necessário à produção do estrume correspondente.
 
            Todas as manhãs, os rebanhos saíam para os montes, dando-lhes vida, com o toque  dos pífaros, canções e brincadeiras dos pastores,  e  o som de chocalhos e campainhas ecoando por vales e quebradas.
 
            Além do estrume, o rebanho fornecia os cabritos, de cuja venda se obtinham os meios para aquisição de mercearia, roupas e calçado, e também o leite e o queijo, parte importante da dieta alimentar da gente da Serra.
 
            A pastorícia implicava as seguintes acções:
 
·         apascentar as cabras, todos os dias; na Primavera e Verão, até aos montes mais altos, e no Outono/Inverno, com dias menores, nas terras baixas e lameiros; em dias de nevão e tempestade, os animais ficavam no curral e eram alimentados com pasto seco – feno, folhas e bandeiras do milho;
·         roçar 2 molhos de mato, diariamente e logo de manhãzinha, nas testadas da propriedade ou nos baldios distantes, e transportá-los para o curral, para produção de mais uma camada de estrume, com os excrementos das cabras, durante a recolha nocturna;
·         ordenhar as cabras diariamente, utilizando o leite para fabrico de queijo, ou na alimentação -  “mociço” ou “soro”;
·         fazer o queijo, depois de pôr o leite a coalhar durante 45 minutos, com cardo ou coalho, e utilizando os acinchos para espremer a coalhada e obter o leite soro;
·         curar os queijos na queijeira, durante cera de um mês, limpando-os e virando-os todos os dias, e depois guardá-los na arca  ou no pote, barrados com azeite e pimenta, para não tomarem bolor;
·         tirar o estrume do curral para o exterior, quando aquele começar a estar mais alto que a porta;
 
 
Quanto aos cabritos,  a gestação é de cinco meses, nascendo os “temporões” em Fevereiro/Março, os “serôdios” em Setembro, e os “redolhos” em Novembro.
Normalmente mamavam durante cerca de 3 meses, eram “apartados” de noite, durante mês e meio, e depois “embarbilhados” cerca de um mês, para se desabituarem de mamar.
Algumas “chibinhas” não eram vendidas e reforçavam o rebanho, em substituição das mais velhas, sacrificadas pela festa.
 
 
Outros animais domésticos
 
            Na sua labuta diária, o homem da Serra contou  sempre com a ajuda preciosa dos bois – quatro e cinco juntas em cada povoação, que lavravam a terra, transportavam mato, estrume, todas as colheitas e outros produtos, nos carros típicos chiadeiros, munidos de fueiros e sebes, consoante a natureza da carga.
            Hoje, abandonadas as terras, os pachorrentos e amigos bois são mera recordação dos mais velhos e desconhecidos dos mais novos. Aqui e além, ainda encontramos um carro, um arado de ferro e uma grade, a lembrar a azáfama de outros tempos.
            Em menor número, também era utilizado o burro  e o macho/mula, para o transporte de produtos e mercadorias, nos terrenos de mais difícil acesso.
 
            Mas a par dos animais que colaboravam nas lides agrícolas e outras, existiam também outros, destinados a abastecer a família, que requeriam cuidados diários. Nestes incluem-se:
 
O Porco
·         O porco, comprado nos mercados de Coja, Fundão, etc., em Março/Abril, e alimentado com três refeições diárias, na loja anexa à casa de habitação; caso se tratasse de macho, tinha de ser entretanto capado;
·         Em Dezembro/Janeiro procedia-se à matança, com a ajuda dos vizinhos;
·         as tripas eram lavadas na ribeira e depois utilizadas para fazer os “enchidos” – chouriças de carne e de sangue, paio e bucho;
·         as pás e os presuntos eram tratados e secos ou guardados na salgadeira, tal como outras partes do animal, para consumo ao longo do ano.
 
As Galinhas
 
            A capoeira era parte integrante da casa de família, na qual reinava o galo para anunciar a manhã e galar os ovos de reprodução. Exigiam também tratamento diário, e especiais cuidados, na altura do choco, geralmente no fim da Primavera, princípio do Verão:
 
·         preparação de ninho à parte, para evitar interferências alheias;
·         colocação de ovos, em número ímpar – 11-13-15;
·         alimentação  especial e água à “futura mamã”;
·         incubação, durante três semanas;
·         nascimento da prole, que logo partia atrás da mãe, à procura de minhocas;
·         alguns ovos – “chochos ou goros” não davam pintos;
·          ao fim de um mês, a galinha começa a picar os pintos e a repeli-los, como que a dizer-lhes “governem-se”.

 
 Ferramentas e Utensílios
 
            Na execução das tarefas agrícolas e no seu dia a dia, o serrano utilizava uma série de ferramentas e utensílios que, se não forem guardados e catalogados, vão desaparecer para sempre e cair no esquecimento. Vamos enumerá-los e reproduzir imagens de alguns, no final do capítulo.
 
            Na preparação da terra de cultivo eram utilizados, entre outros:
 
- o arado de ferro e o arado de madeira, para lavrar as terras de lameiro e de sequeiro, respectivamente;
- a grade  de madeira, com espigões de madeira ou de ferro, para desfazer os torrões e alisar a terra;
- o ancinho de dentes compridos e a  enxada, para cavar a terra, nas parcelas mais pequenas;
- o ancinho de dentes curtos, o sacho e a sachola, para semear, sachar e regar, tirar batatas, etc;
- a  forquilha, para tirar o estrume do curral e espalhá-lo na terra;
- a foice  e a gadanha , para ceifar o centeio, a erva e o feno;
- a roçadoura, para cortar mato, canocos, etc;
- a cesta, para transportar estrume, espigas de milho, batatas, cachos, etc;
- o cesto, para transportar sementes, frutos, hortaliças, etc.
. o canastrão, para transporte de produtos vários;
- a e a picareta, para abrir, limpar e reparar as levadas.
 
            Na preparação do linho, intervinham vários instrumentos, sequencialmente:
- o maço, a tascadeira, a espadana e o cortiço, o sedeiro, a roca com o fuso, o argadilho, a dobadoura  e por fim o tear.
 
 
            Para atar os molhos de mato e outros, usavam-se cordas com um cãibo  (cambo) numa das extremidades.
           
           
A ordenha era feita para as “ferradas”, recipientes de lata ou folha de flandres, e os pastores usavam os  “ferrados”, recipientes mais pequenos de cerca de um litro, para ordenhar a cabra “merendeira” e comer o leite misturado com um pedaço de broa, a meio das tardes longas de Verão, já que almoçavam cerca das 10H00, depois de roçar dois molhos de mato, e a ceia era só a noitinha.
 
 
            Como instrumentos de medida, usavam-se:
 
- o alqueire, o meio alqueire, a quarta e o selamim,  feitos em madeira, para medir cereais – milho, centeio, cevada, farinha e  feijão;
 
- o almude (e também o alqueire), o cântaro, a panela, a canada e o quartilho, para medir líquidos – vinho, azeite e mel.
 
            A capacidade do alqueire variava, entre os 14 e os 20 litros, e o selamim correspondia à 16ª parte do alqueire, ou seja cerca de um litro.
 
            O almude também variava, entre os 16 e os 25 litros. O cântaro equivalia a cerca de 16 litros, a panela era a quarta parte do almude, a canada a 12ª parte, e o quartilho 3,5 decilitros.
 
            Com tais variações, de região para região, e às vezes de uma freguesia para outra, havia uma certa confusão e até oportunismos, pois alguns negociantes menos honestos  usavam uma bitola para comprar e outra vender.
 
 
 
 
 
 
Na vida das comunidades serranas desempenhavam importante papel os vários artesãos, de cujas mãos saíam trabalhos que por vezes eram autênticas maravilhas. Os principais eram os seguintes:
 
·         o alfaiate, que fazia fatos por medida, e, em muitos casos, ia fazer o trabalho a casa do cliente, durante dias, até vestir toda a família. Precisava apenas de metro, tesoura,  dedal, linhas, giz e ferro de engomar (a carvão). Numa fase posterior, passou a usar máquina de costura;
 
·         o barbeiro, que em regra trabalhava à avença e era pago em géneros –  um alqueire de milho, por ano e por família. Bastava-lhe a tesoura, o pente, a navalha de barba e a máquina de cortar cabelo;
 
·         o carpinteiro, que fazia e consertava portas e janelas, sobrados, madeiramentos do forro e telhado, endireitava (nivelava) os moinhos, e também produzia, além dos caixões, móveis rudimentares, como bancos, mesas, armários, cómodas.
      As principais ferramentas que utilizava eram  a serra, o serrote, o  machado, o martelo, o formão, o metro de madeira articulado, o compasso, o esquadro, a plaina, a enchó, a goiva, a grosa, a pua, a verruma, etc.;
 
·         o ferreiro, que fabricava e consertava todas as ferramentas, em ferro, utilizadas pelos diferentes artífices e nas lides agrícolas, e também as ferraduras e canelos, para ferrar periodicamente os machos e os bois. Trabalhava na forja, equipada com bigorna e fornalha activada por um fole;
 
·         o pedreiro, que construía casas, palheiros, fornos, moinhos, lagares, currais e outros edifícios, utilizando as toscas pedras de xisto,  ligadas com barro amassado, únicos materiais então disponíveis na Serra. Os seus instrumentos de trabalho eram o martelo, o nível e o fio de prumo, para além da marreta, picareta, guilho e barra, utilizados na pedreira.
 
·         o sapateiro, que produzia sapatos e  botas brochados, tamancos e tamancas, e fazia consertos, pondo tombas e meias solas. Também ia a casa dos clientes, tal como o alfaiate. Utilizava a faca (bem afiada), a sovela, o martelo, a pedra reboluda para bater a sola, a forma de ferro, as formas de pau, e as “linhas de sapateiro”, feitas por ele próprio, dum novelo de fio, cera e cerdas nas pontas;
 
·         o tecelão  e as tecedeiras, que fabricavam bonitas mantas de retalhos, toalhas e lençóis de linho, nos teares manuais, actividade que requeria ainda assim alguma perícia, principalmente na montagem da teia.
 
 
Além destas, havia outras ocupações, de carácter permanente ou  ocasional, como:
 
·         o almocreve, que com os machos e mulas transportava cargas diversas, - carvão, vinho, azeite, cereais, etc., dumas aldeias para as outras, pelas veredas das íngremes ladeiras;
 
·         o carvoeiro, que das cepas de torga, ervideiro e outros arbustos, fazia carvão, nas encostas, utilizando o enxadão, o sachão, e por vezes a machada. O processo compreendia o arranque das cepas, a abertura de uma cova de forma cónica, e a queima incompleta da lenha, que a partir de certa altura ia sendo tapada, com te