- (Actividades,
Usos, Costumes e Tradições)
-
-
-
Antes de iniciarmos a enumeração dos diversos elementos do
nosso Património Cultural, façamos algumas reflexões sobre o conceito
ou conceitos de Cultura.
-
Em qualquer dicionário ou enciclopédia, vamos encontrar definições
simplistas do termo, como “conjunto de conhecimentos adquiridos por
alguém”, “estado de
quem tem desenvolvimento cultural”,
“conjunto de qualidades e defeitos básicos, de caracteres que
definem um povo”, etc..
Mas o significado de Cultura é muito mais vasto. Muitos estudiosos
se têm debruçado sobre o tema e formulado conceitos mais abrangentes,
como:
- “ Cultura é o conjunto de estruturas sociais e das manifestações artísticas,
religiosas e intelectuais, que definem um grupo ou uma sociedade”;
- “Cultura
é o conjunto de ideias, conhecimentos, técnicas e artefactos, padrões
de comportamento e atitudes que caracterizam um grupo humano”;
- “Cultura
é o processo dinâmico de afinar o intelecto e a sensibilidade, de
apurar o senso crítico, de intensificar a faculdade de bem ajuizar
sobre as obras de arte, da literatura, da ciência, e ainda requintar a
urbanidade para com o próximo”;
- “ A Cultura
está contida e exprime-se
no conjunto das obras de filosofia, literatura, música, pintura,
escultura, arquitectura, nas ideias científicas, na religião, etc.”;
- “ A Cultura
revela-se nas concepções do mundo e da vida que o homem exprime, através
das obras literárias e artísticas, na filosofia, na religião, na música,
no direito, na política e nas meditações sobre a ciência e as técnicas”.
-
Há quem confunda Cultura
com Civilização,
mas embora ambas revelem o homem e nas duas ele se projecte, encerram
conceitos diferentes. A primeira está mais ligada ao
ser e a segunda ao ter.
-
A Civilização, que vem de “civis, civilis”, implica o
esforço colectivo dos homens, no sentido de se apoderarem das técnicas
e
porem ao seu serviço os recursos
que elas dominam.
-
Para Serafim da
Silva Neto, filólogo
brasileiro, elas distinguem-se do seguinte modo:
- ·
A cultura é
rural, a civilização urbana;
- ·
Uma é isolada, a
outra está em contacto com todo o mundo;
- ·
A cultura é
provinciana, a civilização cosmopolita;
- ·
A primeira é pré-letrada,
a segunda, letrada;
- ·
A cultura é
conservadora, a civilização inovadora.
-
- Concluindo, verificamos que o Património
Cultural Pampilhosense abrange todas as actividades e manifestações da
vida de nossos antepassados, desde os tempos mais recuados até ao
presente, incluindo utensílios, alimentação,
vestuário, usos, costumes, tradições, invenções, crenças e práticas
religiosas, etc.. Um campo vastíssimo,
que vamos
tratar por subtítulos, para diminuir o número das inevitáveis
omissões.
-
- A.
Actividades
- Até meados do Século passado, a vida dos serranos decorria em torno
das actividades agrícolas, porque, não havendo
empregos nem outros meios de ganhar dinheiro, viviam quase
exclusivamente do cultivo
da terra, extraindo dela
os alimentos necessários à sua subsistência.
- Como o solo era pobre, exigia
trabalho aturado de todo o agregado familiar, ao longo do ano, com
muito suor e sacrifícios
sem conta. Não havendo fertilizantes químicos, a produção agrícola
dependia da pastorícia, que além de outros proventos (de que
falaremos mais adiante), fornecia o estrume indispensável para que
a terra produzisse alguma coisa.
- Assim, os nossos pais e avós passavam os seus dias a apascentar os
rebanhos, a cavar e lavrar a terra, a semear os cereais, hortaliças
e pastos, a sachar as ervas daninhas, a regar, colher, transportar,
secar e guardar o produto das colheitas, de harmonia com o calendário
agrícola e as condições climatéricas, que naqueles tempos
respeitavam o suceder das Estações.
- Vejamos os ciclos dos diferentes produtos, e o calendário das
tarefas a executar, que variava conforme a terra fosse de
sequeiro ou de rega, e ainda com a localização mais soalheira ou
mais fria.
- Comecemos pelo ciclo do milho, cereal
originário da América e trazido para a Europa, e consequentemente
para Portugal,
pelos nossos Descobridores, no Séc. XVI, tornando-se a
partir daí o cereal mais cultivado nas Beiras e na Serra.
- a. Ciclo do
Milho:
-
Abril/Maio
-
- espalhar o estrume sobre a terra;
-
- cavar
ou lavrar ,
enterrando o estrume nos regos,
como fertilizante;
-
- semear,
pondo
grão a grão ou espelhando-o sobre a terra:
-
- gradar
ou alisar a terra,
para tapar a semente;
-
- 1
semana depois, o milho é nascido;
-
- 1 mês
depois, desbastar
o milho,
arrancando os pés
que estejam demasiado juntos;
-
- abrir
os regos,
paralelos e perpendiculares, para a rega;
-
- limpar e vedar as levadas, por vezes com
quilómetros, e construir ou reparar as represas;
-
- regar,
com
intervalos máximos de 8/10 dias, durante 3 meses;
-
- sachar
as ervas que entretanto nascem pelo meio, arrancando à mãoas
que estão junto dos pés de milho, para não afectar as raízes;
- Julho/Ago.
- ·
esbandeirar,
e
secar as bandeiras, que ficavam para o dono dos bois que
efectuaram a lavra da terra;
- Ago/Set
- ·
desfolhar,
pendurando
os atados no próprio canoco, para secarem;
- Set/Out
- ·
colher
as espigas
e transportá-las nos carros de bois, com sebes, ou em cestas e
canastrões, à cabeça e às costas;
- ·
estonar,
ficando as tonas para o dono dois bois que transportaram as espigas;
- ·
debulhar,
com a ajuda dos vizinhos, em serões animados, utilizando paus ou
viros;
- ·
secar
o
grão, no estendedouro, durante uma semana, protegendo-o da
humidade nocturna e voltando a expô-lo ao sol, de manhã;
- ·
recolher
o
grão na
arca;
- Fabrico
do pão (broa)
- ·
moer
o
grão no moinho comunitário, para onde era transportado em sacos ou
taleigos (sacos de pele de cabra curtida);
- ·
transportar
a farinha do moinho para a arca, até chegar a vez de utilizar o
forno;
- ·
peneirar
a farinha, para separá-la do farelo;
- ·
amassar
a
farinha, com água morna;
- ·
fintar
ou levedar
a massa, durante cerca de 1 hora;
- ·
aquecer
o forno, com
lenha previamente carregada dos montes;
- ·
raer
(varrer
com o rodo) as cinzas e
brasas para junto da porta;
- ·
tender
as
broas e metê-las no forno com a pá, para cozerem durante cerca de
uma hora;
-
A cozedura, de
12 a 15 broas , conforme a família, dava para 8/10 dias. Se se
acabava antes de poder cozer de novo, pedia-se uma broa emprestada
à vizinha, com retorna posterior.
- b.
Ciclo do Centeio
-
O centeio era semeado nas encostas, onde cresciam matagais, e
que não tinham aptidão para outras culturas.
-
O calendário das tarefas era o seguinte:
- Jan/Mar
- ·
cavar a
testada e cortar o mato e arbustos, estendendo-os em camadas
por toda a superfície, para secarem durante o Verão;
- Out.
- ·
Queimar a
lenha seca, para fertilizar a terra com as respectivas cinzas, e
depois semear, espalhando o grão;
- Jun.
- ·
Ceifar
o centeio, fazer e atar os molhos, com nagalhos de giesta, e
transportá-los em carros de bois ou às costas, para junto da eira,
formando os rolheiros (ou
medas), com as espigas voltadas para dentro. A propósito, havia o
ditado de que “pelo S. João chega-se o serôdio e o temporão”;
- Jul/Ago
- ·
malhar o
centeio, com duas filas de homens, frente a frente, empunhando e
batendo com os manguais, que eram formados por uma vara delgada e
comprida, e outra curta e mais grossa, chamada pirto,
ligadas por uma
correia;
- ·
separar
a palha do grão, por meio de forquilhas;
- ·
secar e moer o
grão de centeio, como se descreveu para o milho;
- ·
aproveitar o colmo
(palha menos moída com as malhadelas), para fazer nagalhos para
atar os molhos de feno e outros, e também fazer abanadores;
- ·
aproveitar a
palha miúda para encher as enxergas (colchões).
-
-
- c.
Ciclo do Linho
-
-
No tempo dos nossos avós não havia lojas de pronto a
vestir, nem meios pecuniários para comprar camisas, toalhas e lençóis.
Por isso, recorriam à cultura do linho, nas terras de melhor
qualidade e com abundância de água.
-
- Abr/Mai
- ·
cavar e
preparar a terra, semear e
regar durante três meses;
- Ago
- ·
arrancar;
- ·
ripar,
no ripanso ou ripador, para tirar a baganha com a semente (depois
seca ao sol para esta sair);
- ·
remolhar
na água, durante 4/5 dias, com pedras em cima dos molhos, para não
boiarem;
- ·
1ª seca, durante
dois dias;
- ·
2ª remolhadela,
durante mais 4/5 dias;
- ·
2ª e última
seca;
- ·
maçar, separado
em “mãos cheias”, e batido com maço, sobre uma pedra;
- ·
tascar, também
às “mãos”, na tascadeira, instrumento tosco de madeira, com
dois pés e a ponta apoiada na parede;
- ·
espadelar (vulgo
“espadanar”), com a espadela de madeira sobre um cortiço, para
separar a estopa;
- ·
sedar ou assedar
no sedeiro, para o
tornar macio e separar a estopinha;
- ·
fiar com
a roca, donde vão saindo as “maçarocas”;
- ·
fazer as meadas no
argadilho (ou sarilho);
- ·
fazer a barrela das
meadas, com água quente e cinza, e proceder à sua cozedura
no forno, em caixas de madeira, barradas com bosta de boi;
- ·
lavar as meadas na ribeira, e pô-las depois a
corar e secar;
- ·
2ª barrela com água quente;
- ·
dobar na dobadoura, donde vão saindo os
novelos;
- ·
tecer no
tear, de cujo tecido são depois feitos lençóis, toalhas e
camisas, que “duram uma vida”.
-
-
- Lavagem da roupa
-
- Vem
a propósito referir que, naqueles recuados tempos, à falta de sabão
ou de recursos para adquiri-lo, as mulheres
-
- serranas recorriam muito
às barrelas para
o tratamento da roupa.
- Geralmente
a barrela era feita com água quente, em pequenas dornas ou celhas,
com farinha, urina e borras de azeite. Depois lavava-se a roupa na
ribeira e punha-se a corar. Seguia-se uma 2ª barrela, só com água
quente e mentrastos (erva odorosa), de um dia para o outro. E depois
de uma última lavagem, ficava bem branca e cheirosa.
-
- d.
Ciclo dos Vegetais
-
- ·
A
batata
- A batata é originária dos Andes e foi introduzida na Europa pelos
Espanhóis, em 1534. Alguns países extraem dela álcool carburante,
e outros, um tipo de aguardente, designado “schnaps”.
- A batata é
semeada em Abril, depois de estrumada e cavada a terra. Demora
três meses a criar-se, exigindo sacha e regas periódicas;
-
- ·
A
hortaliça
- As couves, os nabos, as alfaces, as
cebolas e os alhos são
semeados em Agosto, na terra das batatas. Como não havia onde
comprar os pés para dispor, guardava-se a semente de uns anos para
os outros;
-
- ·
0
feijão
- O feijão rasteiro era semeado pelo
meio do milho, e o trepadeiro, em recantos com canas e paus para se
apoiar.
-
- e.
Ciclo do Feno
-
- Ago
- ·
A erva é semeada pelo meio do milho, em terras com
abundância de água, designadas por “lameiros”, sendo os
canocos (caules do milho) cortados,
após a recolha das espigas;
-
- Out/Fev
- ·
Durante o Outono/Inverno, serve de pastagem para o gado;
-
- Mar/Abr
- ·
Na Primavera deixa-se crescer e ceifa-se , com a foice
ou a gadanha;
-
- ·
Depois de secar três a 4 dias, ata-se em molhos, que
são guardados no palheiro, para alimento do gado, nos dias de nevão
e tempestade
-
-
- f.
Ciclo da Castanha
-
-
A castanha desempenhou um papel importante na alimentação
das gentes da Serra, principalmente antes da divulgação da batata
e do milho.
-
-
Dum extremo ao outro do Concelho, por vales e encostas,
existiam muitos soutos, alguns com várias dezenas de árvores
centenárias, hoje a caminho da extinção, se não houver novas
plantações. Persistem ainda alguns exemplares, a amenizar as tórridas
tardes de Verão com a sua sombra amiga e refrescante.
-
-
Conforme refere o ditado
“o varejão de
S. Simão (28 Out.) prometeu castanhas aos Santos, ou apanhadas ou
varejadas”, a apanha
do fruto começa em fins de Outubro, princípios de Novembro, à
medida que os ouriços vão ficando amarelos e vão abrindo.
-
-
Parte delas eram comidas assadas,
nos tradicionais magustos nas hortas, dando ensejo a alegres
convívios entre pessoas de todas as idades, e nos assadores de
barro, em casa, entre família. Outras eram cozidas, servindo de
complemento da parca refeição, ou de sobremesa.
-
Quem colhia maior quantidade, secava-as no caniço (forro da
cozinha com ripas), durante cerca de 3 meses, tendo o cuidado de as
mexer e revolver, de quando em quando, para apanharem calor por
igual. Depois eram pisadas com os pés, num canastrão, para
largarem a casca, e peneiradas ao vento, para separar as impurezas.
E ficava assim a castanha pilada, dada aos miúdos como
guloseima, trincada pelos que tinham melhor dente, e cozidas só com
água ou com um pouco de leite – o
caldudo.
-
-
Também aqui se manifestava a solidariedade aldeã, pois os donos dos
soutos, a partir de certa altura, comunicavam às famílias que não
tinham castanheiros que podiam ir fazer o
“rebusco”, isto é, apanhar as castanhas que sempre ficavam escondidas debaixo da
folhagem, ou no mato, ao saltarem para mais longe, quando se
desprendiam dos ouriços.
-
-
- g.
Ciclo do Azeite
-
-
A oliveira é originária da Síria e Líbano e terá sido trazida para
a Itália, Espanha e Portugal pelos Fenícios, de modo que no tempo
dos Lusitanos e dos Romanos já aqui era cultivada extensivamente.
Desenvolve-se mais nas encostas soalheiras e terrenos abrigados dos
ventos.
-
-
O azeite teve grande importância na vida das populações
serranas, sendo utilizado para temperar os alimentos e também na
iluminação, queimado
nas típicas candeias e lanternas de azeite. Veio até aos nossos
dias o seu uso nas lamparinas das igrejas e capelas, para alumiar
o Santíssimo.
Para o efeito muitos devotos faziam oferta
de alguns litros do sagrado combustível, após
a colheita, e casos havia, por exemplo na freguesia de
Unhais-o-Velho, em que
as Irmandades religiosas possuíam azeite próprio, fornecido por
oliveiras que tinham sido doadas por
almas caridosas.
-
-
Vejamos o trabalho requerido e o longo
percurso da produção do azeite:
-
- ·
cava e fertilização da terra magra dos socalcos;
- ·
poda e limpeza, de dois em dois anos;
- ·
floração, entre Abril e Junho;
- ·
apanha da azeitona, em Novembro e Dezembro, por
varejo e com escadas de madeira, estreitas e compridas, com 10 a 15 lanços;
- ·
transporte da azeitona, em cestos ou sacas, às
costas ou em carros de bois;
- ·
limpeza, para separação das folhas e outras
impurezas;
- ·
armazenamento, nas tulhas, até ir para o
lagar;
-
- Depois seguem-se as complicadas operações,
nos lagares, engenhos rudimentares e artesanais, movidos a água,
cujo funcionamento exige alguma perícia e experiência, por parte
do lagareiro e seu ajudante, na execução das necessárias diligências:
-
- ·
colocação da azeitona no pio, recipiente grande, de forma cónica,
no qual gira a galga, mó vertical que esmaga e mói a
azeitona, transformando-a em bagaço;
- ·
colocação do bagaço nas seiras e sobreposição
destas na prensa;
- ·
movimentação da vara, por meio do fuso
(parafuso sem fim), pressionando as seiras, para que o azeite saia e
escorra para a tarefa;
- ·
preparação da fornalha, para fornecimento de
água quente através da caldeira;
- ·
escaldão do bagaço, com água quente, para
retirar dele a máxima quantidade de azeite;
- ·
sangria da tarefa, para saída da água,
ficando só o azeite;
- ·
medição e acondicionamento do azeite, em
odres, e transporte destes para casa;
- ·
guarda do azeite, na loja, em grandes potes de
barro, vidrados.
-
- Entretanto, e durante os dois meses de
funcionamento dos lagares, tinham
ali lugar as conhecidas tibornadas,
banquetes de bacalhau com hortaliça, abundantemente adubados, e
outras iguarias, pretexto para saudáveis convívios de famílias e
de amigos.
-
-
-
Encerramos o ciclo do azeite, com a transcrição de um
expressivo soneto:
-
- Era um lugar fraterno o
do lagar
- Do seu rodar contínuo,
sem parar,
- Alimento e vida dele
surgia...
- Que no Inverno a luz
nos acendia.
-
- Tarefa infinita e
divinal,
- Empreendida com amor
acrisolado.
- Dela brotava o azeite,
qual cristal,
- Raio de luz, diamante
imaculado.
-
- Em certas noites
surgiam as “tibornas”
- E a fornalha tornava as
manhãs mornas,
- Era transcendente a sua
acção...
-
- Que, vivida pelo povo,
intensamente,
- Dela tirava o provento,
alegremente,
- E lhe enchia de amizde
o coração!
-
-
- h.
Ciclo do Vinho
-
-
A cultura da videira é muito antiga, vindo do tempo dos
Gregos e Romanos. Exige terrenos areno/argilosos e clima seco –
tropical ou temperado. Teve maior desenvolvimento, depois de
descoberta a poda, no Séc. VI a. C., e
hoje é cultivada nos cinco Continentes.
-
-
Na Serra, não existem vinhas extensivas, como no Douro,
Beiras e Alentejo, predominando os bacelos nas paredes dos minifúndios
e em pequenas latadas.
-
No entanto, o serrano tem um certo orgulho na “sua produção
vinícola”, para consumo próprio, e faz questão de convidar os
amigos para a “abertura do pipo”, e para libações periódicas
na adega, acompanhadas de petiscos a puxar por mais uma caneca.
-
-
- A produção do vinho passa pelas seguintes fases:
-
- ·
poda
das videiras, em Janeiro e Fevereiro, conforma a zona;
- ·
cura, com
sulfato de cobre, mais que uma vez, durante o período de
crescimento e maturação;
- ·
desfolhagem, removendo
algumas folhas, para possibilitar a exposição dos cachos à luz
solar e facilitar o seu amadurecimento;
- ·
vindima, em
Setembro e Outubro;
- ·
transporte das
uvas para as adegas, em cestas à cabeça, canastrões às costas,
ou em carros de bois;
- ·
colocação das
uvas nas dornas, e
seu esmagamento com os pés (>vinho doce);
- ·
fermentação do
vinho, durante uma semana;
- ·
transferência do
vinho, da dorna para as pipas e pipos;
- ·
aproveitamento e
transferência do mosto,
para os alambiques (de cobre), e fabrico de aguardente bagaceira,
por destilação.
-
-
-
-
-
Como referimos atrás, a agricultura estava
dependente da pastorícia, para o fornecimento do estrume, de modo
que quem tinha terras de cultivo, possuía também uma
“cabrada”, cujo número de animais variava com as necessidades e
posses, indo de 20/30 até 60/80, nas famílias mais abastadas.
-
-
Quando as propriedades estavam
dispersas, em cada núcleo existia um curral, utilizado pelo
rebanho, em sistema rotativo, durante o período necessário à
produção do estrume correspondente.
-
-
Todas as manhãs, os rebanhos saíam para os montes,
dando-lhes vida, com o toque dos
pífaros, canções e brincadeiras dos pastores,
e o som de chocalhos e campainhas ecoando por vales e
quebradas.
-
-
Além do estrume, o rebanho fornecia os cabritos, de cuja
venda se obtinham os meios para aquisição de mercearia, roupas e
calçado, e também o leite e o queijo, parte importante da dieta
alimentar da gente da Serra.
-
-
A pastorícia implicava as seguintes acções:
-
- ·
apascentar
as cabras, todos os dias; na Primavera e Verão,
até aos montes mais altos, e no Outono/Inverno, com dias menores,
nas terras baixas e lameiros; em dias de nevão e tempestade, os
animais ficavam no curral e eram alimentados com pasto seco –
feno, folhas e bandeiras do milho;
- ·
roçar 2 molhos de mato, diariamente e logo de manhãzinha,
nas testadas da propriedade ou nos baldios distantes, e transportá-los
para o curral, para produção de mais uma camada de estrume, com os
excrementos das cabras, durante a recolha nocturna;
- ·
ordenhar as cabras diariamente, utilizando o leite para
fabrico de queijo, ou na alimentação -
“mociço” ou “soro”;
- ·
fazer
o queijo,
depois de pôr o leite a coalhar durante 45 minutos, com cardo ou
coalho, e utilizando os acinchos para espremer a coalhada e obter o
leite soro;
- ·
curar
os queijos na
queijeira, durante cera de um mês,
limpando-os e virando-os todos os dias, e depois guardá-los na arca
ou
no pote, barrados com azeite e pimenta, para não tomarem bolor;
- ·
tirar
o estrume do
curral para o exterior, quando aquele começar a estar mais alto que
a porta;
-
-
- Quanto aos cabritos,
a gestação é de cinco meses, nascendo os “temporões”
em Fevereiro/Março, os “serôdios” em Setembro, e os
“redolhos” em Novembro.
- Normalmente mamavam durante cerca de 3 meses,
eram “apartados” de noite, durante mês e meio, e depois
“embarbilhados” cerca de um mês, para se desabituarem de mamar.
- Algumas “chibinhas” não eram vendidas e
reforçavam o rebanho, em substituição das mais velhas,
sacrificadas pela festa.
-
-
- Outros
animais domésticos
-
-
Na sua labuta diária, o homem da Serra contou
sempre com a ajuda preciosa dos bois – quatro e cinco
juntas em cada povoação, que lavravam a terra, transportavam mato,
estrume, todas as colheitas e outros produtos, nos carros típicos
chiadeiros, munidos de fueiros e sebes, consoante a natureza da
carga.
-
Hoje, abandonadas as terras, os pachorrentos e amigos bois são
mera recordação dos mais velhos e desconhecidos dos mais novos.
Aqui e além, ainda encontramos um carro, um arado de ferro e uma
grade, a lembrar a azáfama de outros tempos.
-
Em menor número, também era utilizado o burro
e o macho/mula, para o transporte de produtos e mercadorias,
nos terrenos de mais difícil acesso.
-
-
Mas a par dos animais que colaboravam nas lides agrícolas e
outras, existiam também outros, destinados a abastecer a família,
que requeriam cuidados diários. Nestes incluem-se:
-
- O
Porco
- ·
O
porco, comprado nos mercados de Coja, Fundão, etc.,
em Março/Abril, e alimentado com três refeições diárias, na
loja anexa à casa de habitação; caso se tratasse de macho, tinha
de ser entretanto capado;
- ·
Em
Dezembro/Janeiro procedia-se à matança, com a ajuda dos vizinhos;
- ·
as tripas eram
lavadas na ribeira e depois utilizadas para fazer os “enchidos”
– chouriças de carne e de sangue, paio e bucho;
- ·
as pás e os
presuntos eram tratados e secos ou guardados na salgadeira, tal como
outras partes do animal, para consumo ao longo do ano.
-
- As
Galinhas
-
-
A capoeira era parte integrante da casa de família, na qual reinava o
galo para anunciar a manhã e galar os ovos de reprodução. Exigiam
também tratamento diário, e especiais cuidados, na altura do
choco, geralmente no fim da Primavera, princípio do Verão:
-
- ·
preparação
de ninho à parte, para evitar interferências alheias;
- ·
colocação de
ovos, em número ímpar – 11-13-15;
- ·
alimentação
especial e água à “futura mamã”;
- ·
incubação,
durante três semanas;
- ·
nascimento da
prole, que logo partia atrás da mãe, à procura de minhocas;
- ·
alguns ovos
– “chochos ou goros” não davam pintos;
- ·
ao
fim de um mês, a galinha começa a picar os pintos e a repeli-los,
como que a dizer-lhes “governem-se”.
-
- Ferramentas e Utensílios
-
-
Na execução das tarefas agrícolas e no seu dia a dia, o
serrano utilizava uma série de ferramentas e utensílios que, se não
forem guardados e catalogados, vão desaparecer para sempre e cair
no esquecimento. Vamos enumerá-los e reproduzir imagens de alguns,
no final do capítulo.
-
-
Na preparação da terra de cultivo eram utilizados, entre
outros:
-
- - o arado de ferro
e o arado de madeira, para lavrar as terras de lameiro e de
sequeiro, respectivamente;
- - a grade
de madeira, com espigões de madeira ou de ferro, para
desfazer os torrões e alisar a terra;
- - o ancinho de
dentes compridos e a enxada,
para cavar a terra, nas parcelas mais pequenas;
- - o ancinho de
dentes curtos, o sacho e a sachola, para semear,
sachar e regar, tirar batatas, etc;
- - a
forquilha, para tirar o estrume do curral e espalhá-lo
na terra;
- - a foice
e a gadanha , para ceifar o centeio, a erva e o feno;
- - a roçadoura,
para cortar mato, canocos, etc;
- - a cesta, para
transportar estrume, espigas de milho, batatas, cachos, etc;
- - o cesto, para
transportar sementes, frutos, hortaliças, etc.
- . o canastrão,
para transporte de produtos vários;
- - a pá
e a picareta, para abrir,
limpar e reparar as levadas.
-
-
Na preparação do linho, intervinham vários instrumentos,
sequencialmente:
- - o maço, a tascadeira,
a espadana e o cortiço, o sedeiro, a roca com
o fuso, o argadilho, a dobadoura e por fim o tear.
-
-
-
Para atar os molhos de mato e outros, usavam-se cordas com um
cãibo (cambo) numa das
extremidades.
-
-
- A ordenha era feita para as “ferradas”,
recipientes de lata ou folha de flandres, e os pastores usavam os
“ferrados”, recipientes
mais pequenos de cerca de um litro, para ordenhar a cabra
“merendeira” e comer o leite misturado com um pedaço de broa, a
meio das tardes longas de Verão, já que almoçavam cerca das
10H00, depois de roçar dois molhos de mato, e a ceia era só a
noitinha.
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Como instrumentos de medida, usavam-se:
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- - o alqueire, o meio
alqueire, a quarta e o selamim,
feitos em madeira, para medir cereais – milho, centeio,
cevada, farinha e feijão;
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- - o almude (e também
o alqueire), o cântaro, a panela, a canada
e o quartilho, para medir líquidos – vinho, azeite e mel.
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A capacidade do alqueire variava, entre os 14 e os 20 litros,
e o selamim correspondia à 16ª parte do alqueire, ou seja cerca de
um litro.
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O almude também variava, entre os 16 e os 25 litros. O cântaro
equivalia a cerca de 16 litros, a panela era a quarta parte do
almude, a canada a 12ª parte, e o quartilho 3,5 decilitros.
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Com tais variações, de região para região, e às vezes de
uma freguesia para outra, havia uma certa confusão e até
oportunismos, pois alguns negociantes menos honestos usavam uma bitola para comprar e outra vender.
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- Na vida das comunidades
serranas desempenhavam importante papel os vários artesãos, de
cujas mãos saíam trabalhos que por vezes eram autênticas
maravilhas. Os principais eram os seguintes:
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o alfaiate, que fazia fatos por medida, e, em muitos casos, ia fazer o trabalho a
casa do cliente, durante dias, até vestir toda a família.
Precisava apenas de metro, tesoura,
dedal, linhas, giz e ferro de engomar (a carvão). Numa
fase posterior, passou a usar máquina de costura;
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- ·
o barbeiro, que em
regra trabalhava à avença e era pago em géneros – um alqueire de milho, por ano e por família. Bastava-lhe a
tesoura, o pente, a navalha de barba e a máquina de cortar
cabelo;
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- ·
o carpinteiro,
que fazia e consertava portas e janelas, sobrados, madeiramentos
do forro e telhado, endireitava (nivelava) os moinhos, e também
produzia, além dos caixões, móveis rudimentares, como bancos,
mesas, armários, cómodas.
- As
principais ferramentas que utilizava eram
a serra, o serrote, o
machado, o martelo, o formão, o metro de madeira
articulado, o compasso, o esquadro, a plaina, a enchó, a goiva, a
grosa, a pua, a verruma, etc.;
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- ·
o ferreiro,
que fabricava e
consertava todas as ferramentas, em ferro,
utilizadas pelos diferentes artífices e nas lides agrícolas, e
também as ferraduras e canelos, para ferrar periodicamente os
machos e os bois. Trabalhava na forja, equipada com bigorna e
fornalha activada por um fole;
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- ·
o pedreiro,
que construía casas, palheiros, fornos, moinhos, lagares, currais
e outros edifícios, utilizando as toscas pedras de xisto, ligadas com barro amassado, únicos materiais então disponíveis
na Serra. Os seus instrumentos de trabalho eram o martelo, o nível
e o fio de prumo, para além da marreta, picareta, guilho e barra,
utilizados na pedreira.
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- ·
o sapateiro,
que produzia sapatos e botas
brochados, tamancos e tamancas, e fazia consertos, pondo tombas e
meias solas. Também ia a casa dos clientes, tal como o alfaiate.
Utilizava a faca (bem afiada), a sovela, o martelo, a pedra
reboluda para bater a sola, a forma de ferro, as formas de pau, e
as “linhas de sapateiro”, feitas por ele próprio, dum
novelo de fio, cera e cerdas nas pontas;
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- ·
o tecelão
e as tecedeiras,
que fabricavam bonitas mantas de retalhos, toalhas e lençóis
de linho, nos teares manuais, actividade que requeria ainda assim
alguma perícia, principalmente na montagem da teia.
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- Além destas, havia outras ocupações, de carácter permanente ou
ocasional, como:
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- ·
o almocreve,
que com os machos e mulas transportava cargas diversas, - carvão,
vinho, azeite, cereais, etc., dumas aldeias para as outras, pelas
veredas das íngremes ladeiras;
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- ·
o carvoeiro,
que das cepas de torga, ervideiro e outros arbustos, fazia carvão,
nas encostas, utilizando o enxadão, o sachão, e por vezes a
machada. O processo compreendia o arranque das cepas, a abertura
de uma cova de forma cónica, e a queima incompleta da lenha, que
a partir de certa altura ia sendo tapada, com terra a toda a à
volta, até ao cume. Durante certo tempo ficava só uma pequena
abertura, a fazer de chaminé, e depois tapava-se por completo.
Ficava assim, durante a noite, e na manhã seguinte tirava-se o
carvão para o terreiro, para arrefecer, antes de ser ensacado;
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- ·
o
mineiro, que trabalhava nas explorações
industriais de volfrâmio e outros minerais, e abria as minas de
captação de água. Utilizava a pá, a picareta, a barra, o
guilho, a broca, a marreta, o cesto de ferro, o carro de mão, e o
gasómetro para iluminar a galeria;
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- ·
o resineiro,
que fazia as sangrias nos pinheiros, colocava as tigelas de
barro, a aparar a seiva, e recolhia depois a resina em barricas;
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- ·
o serrador,
que (aos pares) cortava os pinheiros, dividia os troncos em toros
de cerca de 2,5 metros, e serrava estes em tábuas. Para o efeito,
utilizava a “burra” (cavalete improvisado) e uma serra de braços,
movida por dois homens, um no chão e o outro em cima.
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- Mais raramente (só numa ou noutra freguesia) ainda existia um ferrador,
para “calçar” os animais, no “tronco”, e um albardeiro,
para os “vestir” (Fajão, por exemplo).
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- Estas “artes” das rústicas aldeias foram tendo continuidade, porque
eram uma forma de ganhar a vida, e havia candidatos a aprendizes,
que, curiosamente, naqueles
tempos, não recebiam remuneração, trabalhavam de graça e ainda
pagavam ao mestre para os ensinar.
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- Hoje, porém, a maior parte destes artesãos desapareceram,
porque as novas gerações não sentem vocação para os ofícios,
e porque as
comunidades dos nossos dias já não precisam dos seus serviços.
É fácil comprar os artigos de que carecem, nas lojas e mercados.
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A lembrar o passado, persistem ainda alguns desses artesãos,
já idosos, a trabalhar no seu “ofício”, até que lhes faltem
as forças. É o caso de:
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- ·
Joaquim Dias
Francisco, alfaiate, em Souto do Brejo;
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- ·
José Mendes
Gonçalves, barbeiro,
em
Adurão;
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- ·
José
Augusto dos Santos, barbeiro, em Meãs;
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- ·
José Brás
Lopes Pinheiro, carpinteiro, em Adurão;
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- ·
Acácio
Brito Dias, ferreiro, no Carregal;
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- ·
Joaquim
Maria Alves, sapateiro, em Janeiro de Baixo;
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- ·
Joaquim
Barroca, tecelão, em Unhais-o-Velho;
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História da Cultura Portuguesa, ed. da Faculdade de
Letras de Lisboa, 1959/60.
-
Serafim da Silva Neto, in “Manuel de Filologia
Portuguesa, 2ª ed.”
-
Laércio Antão, em “ Serras da Pampilhosa”,
nº 21
-
Laércio Antão, em “Serras da Pampilhosa”,
nº 23
-
Laércio Antão, em “Serras da
Pampilhosa”, nº23
-
Laércio Antão, em “Serras da
Pampilhosa”, nº26
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