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Património
Construído ou Arquitectónico
Foi neste domínio que a acção do Homem
serrano mais se fez sentir. Tendo partido do ponto zero, pois, como
atrás se disse, apenas existiam os montes e vales virgens, cobertos de
arvoredo e matagais, quando os nossos avoengos ali chegaram, nos primórdios
do milénio passado, foi construindo, passo a passo, ao longo das centúrias,
o legado que dele herdámos.
Depois de escolher o local mais apropriado para se instalar,
geralmente junto de uma nascente ou curso de água,, já que esta é
indispensável à vida, e como convinha abrigado dos ventos nórdicos e
banhado pelo sol, iniciou a construção do essencial à sua sobrevivência.
Forçosamente, para se abrigar das intempéries e proteger das
feras, terá começado pelas toscas choupanas, sem nenhuma estética e
pouco conforto, partilhando-as até
com os animais de que se fazia acompanhar. Como materiais disponíveis e
sem qualquer custo, tinha as pedras de xisto e os troncos das árvores,
que então por ali eram
abundantes.
O passo seguinte foi o arroteamento dos batoréis
e das courelas e o cultivo do renovo, para sustento da família. A
terra tudo dá, desde que preparada, adubada e regada. Foi isso que ele
fez, com a água dos ribeiros, acrescida de muito suor, dor e lágrimas.
Quanto a caminhos, começou por fazer trilhos nas suas deslocações
diárias, de casa para o aral
e regresso, e depois veredas mais extensas até
aos aglomerados vizinhos, nas suas relações de compra, venda e
troca de produtos e utensílios. Só muito mais tarde, quando a dimensão
dos lameiros e a intensidade das
actividades agrícolas exigiu a intervenção das juntas de bois, foram
rasgados e aplanados os chamados “caminhos de carro”, únicas
vias existentes em meados do século XX, na maioria das aldeias serranas.
Chegaram aos nossos dias, e ainda existem alguns espécimes,
merecedores de preservação como documento histórico, as típicas habitações
dos nossos antepassados, e que geralmente constavam de:
·
Dois
pisos – loja e sobrado, e ainda o forro
(hoje sótão).
A loja, com acesso exterior, era dividida em duas partes,
destinando-se uma aos animais (cabras ou porco), e a outra, a despensa e
adega, com a arca do milho, o pote do azeite, o pipo do vinho e a
salgadeira; No
sobrado eram feitas divisórias em madeira (“as taipas”),
de modo a delimitar e separar a cozinha, a sala e dois ou três quartos,
conforme o agregado familiar; No
forro guardava-se a lenha, as batatas e também as castanhas, estas
por cima da cozinha, no “caniço”, até secarem e perderem a
casca com facilidade, ficando a castanha pilada.
O pavimento da cozinha era de pedra, com a
lareira a um canto, onde se acendia o lume para cozinhar os alimentos, e
se fazia o braseiro para aquecer toda a família, nos serões das noites
longas de Inverno.
O respectivo equipamento era muito simples, como simples eram os
seus utilizadores:
Até aos tempos em que muitos de nós
fomos criados, não se usavam pratos individuais. A sopa era servida em
malgas (tigelas) e o complemento (batatas, feijões e couves) ia para a
mesa numa bacia de louça ou numa travessa, donde comia toda a família. E neste reduzido espaço, criava-se,
por vezes um rancho de filhos, o que obrigava a que alguns fossem dormir
na loja, em cama improvisada, constituída por uma enxerga, sobre meia dúzia
de falheiros, e mantas de trapos por cobertores.
No Inverno, era grande o desconforto, com o vento a soprar pelas
frestas das lajes e das portas e janelas, cujos materiais e técnica
artesanal de construção não permitiam o ajustamento e calafetação
convenientes. Não raras vezes, a meio da noite, era preciso ir buscar um
balde para aparar uma beira, que
começava a pingar aqui e ali, até que o amainar do temporal
permitisse o acesso ao telhado, para ajustamento das lajes deslocadas do
seu lugar pela ventania.
Mas com o evoluir dos tempos e em contacto com a civilização, o
serrano tornou-se mais exigente em matéria de conforto e comodidade. E
começam a surgir as casas amplas e modernas, de traça própria dos
grandes centros e de lugares exóticos, que nada têm a ver com o ambiente
rústico da Serra.
Tivemos oportunidade de percorrer e fotografar todas as aldeias da
Serra, em 1990, quando da recolha de elementos para a “História
do Regionalismo Pampilhosense”, e,
passados apenas 11 anos, ao compararmos as imagens de então com as de
agora, notamos uma diferença enorme, quer na dimensão quer no aspecto de
todos os aglomerados populacionais. O
facto de existirem no concelho cerca de
quatro dezenas de construtores civis, e todos eles com projectos de
obras em fila de espera, é muito significativo. Apesar de o número de
habitantes vir diminuindo, o número de habitações vem aumentando de ano
para ano.
De
norte a sul e de nascente a poente, tanto nas maiores como até nas mais
pequenas povoações, têm sido erigidas inúmeras construções novas,
umas de emigrantes, outras de reformados, que resolvem acabar
seus dias no torrão natal, e outras ainda para os novos casais,
que encontram ali trabalho e fundam seus lares. Também existem
algumas destinadas a férias e fins de semana, propriedade de
serranos que labutam nos grandes centros e costumam fazer deslocações
frequentes à Serra, para matar saudades e retemperar energias.
Aqui e ali, ainda perduram alguns símbolos da abastança e dos
pergaminhos de tempos passados – a casa apalaçada ou o solar brasonado,
que tiveram a sua época, mas que o tempo tende a destruir e a apagar da
memória dos homens.
Procuraremos dar uma ideia aproximada da extensão do nosso património construído, por freguesias, agrupado por habitações, equipamentos sociais, equipamentos comunitários, estradas, pontes, etc. Os edifícios religiosos serão tratados em capítulo próprio. |