A
fixação do concelho: das origens aos tempos actuais
As primeiras
manifestações da presença do Homem registadas na região actualmente
ocupada pelo concelho da Pampilhosa da Serra datam dos finais do 2º
milénio/inícios do 1ºmilénio a. C.
O topónimo
Pampilhosa aparece pela primeira vez, de que temos conhecimento, num
documento de 25 de Agosto 1241. Trata-se da sentença dada pelo bispo da
Guarda na questão entre o prior da Pampilhosa e o prior da Vila de
Álvaro sobre as dízimas do Machio.
(Mapa dos séculos XII/XIII)
A Pampilhosa terá
recebido o estatuto de Vila no ano de 1308, graças ao rei D. Dinis,
segundo a inscrição existente nos antigos Paços do Concelho. Todavia, o
documento original que comprove esta afirmação ainda não foi
localizado.
Em 1380, a
Pampilhosa foi anexada à Covilhã por decisão do rei D. Fernando.
Contudo, após a crise de 1383-1385, o Rei D. João I, dias depois de
subir ao poder, a 10-4-1385, confirmou-lhes os seus títulos de vila, com
todas as jurisdições, como havia tido antes de 1380. A Covilhã não se
conformando com a decisão real tentou por todos os meios anular os
privilégios novamente repostos à Pampilhosa. A demanda que então teve
início só terminou em 1499, pela mão de El rei D. Manuel I, que
confirmou a carta de privilégios dada por D. João I.
Em 20/10/1513, D.
Manuel I concedeu à vila da Pampilhosa foral novo, confirmando o antigo
foral que fora dado por pessoa particular e confirmado pelo rei Lavrador.
Na Pampilhosa e no
seu termo coexistiram, ao longo do período medieval, o poder régio e o
poder concelhio. Os reis foram fazendo doações sucessivas desta terra.
Assim, D. João I, fez mercê dos direitos reais da Pampilhosa a um certo
Ayres Gomes.
Mais tarde, D.
Afonso V fez Gomes Martins de Lemos, seu Fidalgo e Conselheiro,
primeiro Senhor da Trofa, Senhor da Vila da Pampilhosa, com suas
jurisdições, de juro e herdade, por carta passada em Ceuta a 12-11-1458.
Seguiu-se-lhe no título, seu filho João Gomes de Lemos. O rei D. Manuel
confirmou-lhe os direitos de seu pai, por carta passada em Évora em
7-11-1497. Foram-se sucedendo vários senhores da mesma Casa até que, nos
finais do século XVIII, o senhorio se extinguiu por morte do seu 10º
Senhor, Bernardo Manuel de Carvalho de Lemos e Menezes, voltando a vila da
Pampilhosa novamente à posse da coroa.
Ao contrário do que
normalmente aconteceu em outras regiões, nesta o poder senhorial nunca
foi outorgado pelos monarcas. Na verdade, estes tinham o cuidado de
especificar claramente os limites dos poderes intermédios. No caso desta
vila, os seus senhores, provavelmente, apenas se limitaram a receber
rendas, sem qualquer intervenção na administração local. Comprovam
esta afirmação a carta de 1516, passada pelo rei D. Manuel I que
confirmou aos juizes, concelho e homens bons da vila da Pampilhosa, a
carta de eleição de André Afonso, natural daquela vila, para escrivão
da Câmara e que sem carta régia exercia o ofício havia 12 anos.
Ficavam, assim, anuladas as pretensões da vila de Coelheiros que queria
que o ofício fosse dado a Duarte Lemos, 3º Senhor da Vila da Pampilhosa.
O representante do
Rei no concelho era o alcaide – mor, cujas funções de carácter
militar se prendiam com a defesa e segurança da vila. No caso especifico
da Pampilhosa, apenas há registo de um alcaide, mas da Câmara, cujo
alvará foi passado a José Fernandes Quaresma em 9/12/1728.
No plano fiscal, nos
séculos XV e XVI a Pampilhosa integrava o almoxarifado de Abrantes, a
cujo almoxarife - oficial superior do fisco, competia receber as rendas
reais e executar as respectivas divídas.
Em
termos judiciais a Pampilhosa, em 1525, pertencia à comarca de Tomar. No
entanto, quando Abrantes se tornou cabeça de correição em 3 de Dezembro
de 1533, a Pampilhosa passou a integrar esta comarca, o que aconteceu até
1547, altura em que voltou a ser transferida para a comarca de Tomar onde
permaneceu até 1811. Nesta data transferiu-se para a comarca de Arganil.
Pampilhosa foi comarca durante os anos de 1892 a 1895.
A evolução
populacional
Em 1527-1532, por altura do primeiro
numeramento da população portuguesa, Portugal tinha 1 200 000 habitantes
e registava cerca de 2 milhões de habitantes em 1640.
Desconhecemos, por
este primeiro cadastro da população do reino, o número de habitantes da
Pampilhosa e do termo, uma vez que a folha que continha as preciosas
informações foi arrancada do dito cadastro. No entanto, um autor refere
que a Pampilhosa em 1537 contava com 137 vizinhos, número este ainda
bastante reduzido quando comparado com outros concelhos circunvizinhos,
nomeadamente, Arganil que contava com 310 vizinhos, Góis com 321, e a
Lousã com 525.
Para dar uma
panorâmica da evolução populacional na primeira freguesia deste
concelho, procedemos à recolha dos dados existentes nos livros de registo
paroquiais da paróquia de Nossa Senhora do Pranto. Analisámos a época
de 1566 (data dos primeiros registos) até 1597 ou seja, um período de 31
anos, cujos resultados se apresentam no quadro seguinte:
Da leitura deste
quadro constatamos que o lugar da Pampilhosa registou 118 nascimentos
enquanto que no resto do termo ocorreram 269, um pouco mais do dobro.
Depois da vila os
lugares mais populosos eram o Cabril, o Machio, Pescanseco, Carvalho e
Sobral Valado.
Parece ser licito
concluir que, nos finais do século XVI, o território Pampilhosense
continuava ainda modestamente povoado.
Durante o século
XVII a população do concelho continuaria a crescer, como é possível
constatar pelos registos de baptismo e casamento dessa época.
No século XVIII o
concelho pode já ser considerado medianamente povoado. O quadro seguinte
mostra a evolução da população do concelho por fogos e habitantes:
|
Autor do censo |
Data |
Número de
fogos/concelho |
Número de
habitantes |
|
Padre António Carvalho da
Costa |
1712 |
412 |
|
|
Oliveira Freire |
1755 |
430 |
1 606 |
|
Memórias paroquiais |
1758 |
545 |
1914 |
O século XIX
A
partir de 1855 a população do concelho aumentou significativamente. É
preciso, no entanto, ter em conta que a sua área geográfica também foi
amplamente alargada, pois, como já foi salientado anteriormente, a
Pampilhosa recebeu o concelho de Fajão com todas as suas freguesias, bem
como a freguesia de Portela do Fojo desanexada do concelho de Alvares.
O quadro seguinte
mostra a evolução demográfica na segunda metade do século XIX.
|
Autor |
Data |
Nº de fogos |
Nº de
habitantes |
|
Estatística civil |
1864 |
2 308 |
10 963 |
|
Padre Carvalho (2ª edição) |
1869 |
|
|
O século XX
|
Autor |
Data |
Nº de fogos |
Nº de
habitantes |
|
Censos |
1900 |
2 701 |
12 134 |
|
Censos |
1911 |
3 072 |
13 548 |
|
Censos |
1920 |
3 196 |
13 418 |
|
Censos |
1930 |
3 443 |
14 310 |
A evolução económica
O concelho
Pampilhosense integra uma vasta região situada entre a serra de Estrela e
a serra da Lousã, que exerceu, entre 1064 e 1147, um papel de fronteira.
Com efeito, uma zona montanhosa favorecia a criação de núcleos de
habitantes quase independentes, até certo ponto meio esquecidos dos
soberanos e dos potentados da corte, que preferiam ter aí fortes pontos
de resistência e agressividade contra os inimigos em vez prósperos
centros produtores de onde pudessem tirar abundantes impostos.
Os habitantes da
montanha dedicavam-se, pois, à pastorícia, cultivavam as terras que
desbravam, fabricavam os tecidos com que cobriam o corpo e defendiam
vigorosamente o seu território contra as invasões e pilhagens, que se
sucediam com alguma frequência. Na verdade, tratava-se de uma população
pacifica que apenas pretendia tirar da terra o seu sustento. Foi esta
população que se fixou e desenvolveu na Pampilhosa - Vila e no seu
termo.
Segundo os censos de
1991, da população activa do concelho, 23,2 % pertencia ao sector
primário. Terá sido certamente, desde sempre, este o sector que ocupou a
maioria das populações do concelho.
O padre António
Carvalho da Costa, em 1712, dedica ao concelho da Pampilhosa uma breve
notícia cujo conteúdo nos parece muito incompleto. Informa que "o
seu termo recolhe bastante centeyo, muyta cereija e castanha; as vinhas
são umas emparreiradas, outras em latadas ou embaradas em carvalhos,
amieiros e outras árvores".
Os curas das
freguesias do Cabril e de Pessegueiro, por sua vez, informam que os frutos
predominantes são a castanha e o azeite.
Apesar do concelho
da Pampilhosa ser uma região serrana com solos pouco férteis e
consequentemente pouco favoráveis à agricultura, terá sido, contudo,
esta que desempenhou um papel fundamental na economia Pampilhosense. Os
serranos não só aproveitaram as áreas mais férteis situadas junto aos
cursos de água mais significativos, como, simultaneamente, foram
conquistando terrenos à serra, uma vez que os primeiros eram
insuficientes para o sustento das populações que teimavam em aumentar. O
Homem destas paragens esforçou-se, heroicamente, e obrigou a terra a
fornecer-lhe aquilo de que precisava. Assim, as serranias povoadas de
plantas silvestres e mato deram lugar a campos cultivados de plantas
úteis à sua alimentação.
Mas, para o
desbravamento dos terrenos incultos era necessário efectuar contratos de
arrendamento com a Câmara. Como exemplo, podemos citar o contrato de
emprazamento, datado de 1711, realizado entre os oficiais da Câmara da
Pampilhosa e 25 moradores do lugar de Carvalho. Por este contrato ficamos
a saber que, estes emprazaram uma boa parte dos terrenos circunvizinhos à
aldeia comprometendo-se a pagar à Câmara seis mil réis de foro em cada
ano.
Desde a época dos
Romanos e dos Mouros que se intensificaram na Península as culturas do
trigo, da vinha, da oliveira e das árvores de fruto, que constituíram as
bases da nossa agricultura. O pão, até ao século XVI, era feito de
trigo. De cevada, de centeio, ou mais raramente de milho miúdo. A vinha
existia há muito no território português. E a oliveira, partindo do
Sul, já no século XIII chegava à região de Coimbra.
A cultura da
castanha é típica da região serrana das beiras. A castanha proveniente
dos numerosos castanheiros que povoavam as serras, depois de seca, nos
caniços, durante o inverno, constituiu o alimento fundamental dos
serranos durante séculos. No ano de 1763 só a aldeia de Carvalho
recolhia x alqueires de castanha. Contudo, no terceiro quartel do século
XX, os castanheiros começaram a desaparecer e actualmente esta produção
pouco ou nenhum significado tem na economia desta região.
Pelos textos
deixados pelo padre Luciano
Pereira de
Carvalho, pároco das freguesias de Portela do Fojo e Machio, de 6-7-1938
a 14-7-1940, podemos confirmar que toda a região que compreende as ditas
freguesias, possuíam numerosos soutos de castanheiros, que viriam a
desaparecer no princípio do século XX: "Foi também no seu tempo
[padre Barata] que desapareceram os muitos castanheiros que havia, com
formidáveis videiras que neles se estendia, como a hera nas árvores
velhas. As pessoas de trinta anos ainda se lembram de esta freguesia ser,
a bem dizer um souto contínuo. Os castanheiros morreram e com eles as
videiras. Hoje restam os seus troncos secos e adegas desmoronadas por
esses vales e ainda os caniços nas cozinhas onde secavam aqueles frutos".
As cerejas eram
outro fruto que abundava por esta região mas, tal produção,
actualmente, não tem significado devido ao desaparecimento das
cerejeiras.
Como se pode
constatar, pela notícia do padre António Carvalho da Costa, acima
citada, não é feita, ainda, qualquer referência à cultura do milho
que, como é sabido, passou a ser conhecida, em Portugal, após a
descoberta da América, no século XV. Contudo, em meados de setecentos, o
milho deveria já ser um dos cereais frequentemente cultivado e
abundante e, provavelmente, uma das bases de sustentação das
populações. Com efeito, a décima - imposto pago pelas populações,
incidia sobre, a castanha, o milho, o azeite e o centeio.
A título
exemplificativo, podemos enunciar a aldeia de Carvalho que no ano de 1763
recolhia, quantidades consideráveis de milho e de centeio. Na verdade,
Carvalho, pela sua excelente situação geográfica, a par da abundância
de água gozava de condições favoráveis à agricultura, sendo
considerada, na época, uma das aldeias mais ricas quer em milho quer em
azeite. Por esta razão, Carvalho juntamente com Praçais foram
consideradas os celeiros do concelho a que pertencem, onde acorriam as
populações circunvizinhas nos anos de crise, para adquirir o milho,
alimento tão necessário ao seu sustento.
Pela estatística
agrícola de 1923 ficamos a saber que no concelho foram semeados 3 270
litros de trigo, 41 860 litros de milho, 6 380 l de centeio e 2 280 l de
cevada.
A cultura da
Oliveira conhecida desde a antiguidade foi também desenvolvida nesta
região. A produção de azeite a par da castanha e do milho
constituíram, durante séculos, as componentes mais características da
produção Pampilhosense. Pela estatística agrícola de 1923, sabemos que
o concelho recolheu 237 500 Kg de azeitona que deram origem a 165 000
litros de azeite.
Embora existissem
vinhas nesta região, como comprova a notícia do padre Carvalho da Costa,
já mencionado, não nos parece que o vinho tivesse outra utilização que
não fosse o consumo caseiro. Pela já referida estatística agrícola de
1923, o concelho recolheu 236 700 kg de uva que produziram 157 800 l de
mosto e 126 240 litros de vinho
A economia do
concelho esteve liga, essencialmente, à exploração florestal. A serra
era povoada de grande variedade de árvores. A notícia sobre a Pampilhosa
de 1712 do Padre Carvalho da Costa informa que as vinhas são umas
emparreiradas, outras em latadas ou embaradas em carvalhos, amieiros e
outras árvores.
O prior João Freire
de Albuquerque Maldonado, autor das memórias paroquiais da freguesia da
Pampilhosa datadas de 20 de Junho de 1758, embora muito lacónico nas suas
respostas sobre o termo da Pampilhosa, informa que "a
villa está entre Serras,..., A serra he povoada de azinheiras,
Medronheiros e Matos de que se faz carvam; Estevas, Carquejas, na qual nam
há madeira nem ramagens nem cousa de grande memoria".
Parece existir
alguma contradição nestas duas notícias relativas ao concelho da
Pampilhosa. O porquê de tal contradição ficará por esclarecer. No
entanto convém não esquecer que a segunda notícia é a resposta a um
inquérito governamental, e, talvez, por isso. a fosse útil a omissão
deliberada de alguma riqueza natural do concelho, evitando, assim,
contribuir para a aplicação de algum imposto que só iria agravar a
débil economia dos pampilhosense.
Contudo, a defesa e
o incremento da floresta só se iniciaria no século XX com o aparecimento
do pinheiro bravo. Segundo o padre Luciano Pereira de Carvalho, nas suas
memórias de 1938-1940, ficamos a saber que é após a morte do
castanheiro que se dá o desenvolvimento do pinheiro: "Felizmente
que os montes e vales abandonados pelos castanheiros foram invadidos de
pinheiros, que constituem uma riqueza quer para madeira quer para resina.
A lenha, porém, deixa-se apodrecer nos pinhais por falta de vias de
comunicação. A madeira é despenhada pelos «zorros» para os rios
Unhais e Zêzere, por onde segue a boiar até ao Tejo, junto de Santarém,
no tempo do inverno".
Um pouco por todo o
concelho começaram a surgir amplas manchas verdes que levariam a que este
concelho fosse considerado como a maior mancha de pinheiro bravo da
Europa.
Graças ao
desenvolvimento florestal foram criadas no concelho fábricas de
aguarrás, pez e resina. Todavia, a partir da década de 70, os incêndios
começaram a grassar por esta região reduzindo a cinzas aquela que era
considerada a única riqueza dos pampilhosenses.
A par das
produções já analisadas havia ainda outras, nomeadamente os produtos
hortícolas que contribuíam para o sustento das populações.
Algumas espécies
vegetais necessitavam de água em abundância. Assim, as regas e a
captação de água mereceram a atenção dos serranos que, se uniram para
em conjunto resolverem o problema das regas. De um modo geral, um pouco
por todo o concelho construíram canais para condução das água,
denominados levadas que garantiam o êxito das culturas, mesmo nos estios
mais prolongados. Carvalho, por exemplo, possui três grandes levadas;
Aradas uma pequena aldeia da freguesia de Unhais – o - velho também
possui as suas levadas. A água que corria nas levadas era dividida, pelos
proprietários, recorrendo a convenções estabelecidas amigavelmente,
durante séculos. Outras vezes, foi necessário recorrer às autoridades
judiciais para evitar conflitos que pudessem surgir. Por exemplo,
conhece-se a escritura de partilha amigável de uma levada entre moradores
do lugar de Cavaleiros de Baixo (Fajão), datada de 1715. Contudo, só a
partir de 1867, com base no Código Civil começa a surgir a
regulamentação para uso de águas. Foi elaborada uma Lei de Águas, do
Serviço de Hidráulica, que presidia à distribuição das águas de
rega.
Sendo a Pampilhosa
um concelho entre serras é natural que a pastorícia tivesse tido um
papel relevante na sua economia.
O prior João freire
de Albuquerque Maldonado, nas suas Memórias paroquiais de 1758 informa
que há criadores de cabras.
De facto, a
criação de animais, tanto para apoio aos trabalhos árduos da lavoura
como para produção e abastecimento de carnes também teve a sua
importância.
Durante séculos as
populações criavam os seus gados que depois de abatidos conservavam na
salgadeira ou no azeite contribuindo para o sustento das populações ao
longo do ano.
A caça não era uma
actividade a que todos se pudessem dedicar. Existem alguns documentos que
indicam as regras para caçar.
A
pesca, embora não sendo aqui uma actividade de grande importância, deu
também algum contributo para a alimentação dos serranos. Segundo o
Prior que forneceu as informações sobre a freguesia da Pampilhosa, em
1758, os rios criavam barbos,
bogas, bordalos enguias e trutas ... as pesqueiras são livres e no estio
costumase pescar.
As outras espécies,
nomeadamente a sardinha e o bacalhau, que constituíam o alimento destas
gentes chegavam de outros locais, como da Figueira da Foz ou do Porto.
A
produção de mel tinha também algum relevo, nomeadamente nos séculos
XIX e XX. A cera, derivado do mel, era também comercializada.
Os
minerais mais abundantes do concelho parece terem sido o ouro e o estanho
e foram explorados um pouco por todo o concelho. Outros minerais, como o
chumbo e o zinco situam-se no Alto concelho. O chumbo ocorre em Ceiroco,
Meãs, Unhais-o-Velho, Dornelas, Adurão e Malhada do Rei.
Em 1758, ainda não
havia notícia de exploração de minério no concelho. Apenas se
suspeitava da existência de uma veia de pedras que pareciam estanho num
sítio no lugar de Pescanseco.
A exploração de
minério começou a ter algum significado na década de vinte tendo
contribuído de forma discreta para o desenvolvimento do concelho. No
lugar de Ceiroco da freguesia de Fajão existia uma mina de Chumbo e Zinco
que começou a laborar por alvará de 9-12-1918. Havia ainda duas minas de
zinco situadas respectivamente, na Lomba das Vargens, na freguesia de
Fajão e na Ribeira de Asno, na freguesia de Unhais –o- Velho que
tiveram alvará 16-3-1923.
Os censos de 1991
indicam que 35,1% da população activa do concelho pertencia ao sector
secundário. Já no século XVIII, havia alguns oficiais mecânicos a
laborar no concelho como os sapateiros, carpinteiros, alfaiates,
pedreiros, barbeiros, ferreiros, tecedeiras e lagareiros.
Como já referimos,
duas das mais importantes produções agrícolas dos concelho eram os
cereais e o azeite. Daí, a necessidade de engenhos de moer azeitona e
cereais. Engenhos desses havia-os um pouco por todo o concelho, junto aos
rios e ribeiras. Segundo a geografia comercial e Industrial de João
Félix, citado por J. M. Baptista, de 1875, havia no concelho da
Pampilhosa 44 lagares hidráulicos e 62 moinhos. Os proprietários desses
engenhos eram normalmente as pessoas mais gradas da região, que os
exploravam através de criados ou de arrendamento.
Pinho Leal, em 1867
informa que "há neste concelho fábricas de bureis, picotilhos e
panos brancos, tudo de qualidade grosseira". Informação esta
que nos leva a inferir que as populações fabricavam as suas roupas. No
século XIX a cultura do linho deveria existir um pouco por todo o
concelho. No Baixo Concelho, nomeadamente nas aldeias de Carvalho e
Pessegueiro sabemos que essa cultura era certa. A fiação do linho estava
normalmente a cargo das mulheres. Comprovam esta afirmação os registos
paroquiais da época, que revelam que a maioria das mulheres tinha por
profissão fiadeira. Depois da fiação seguia-se a tecelagem também a
cargo das mulheres. Há notícia de diversos teares no concelho, tendo
chegaram a existir 70 teares de linho e 54 teares de lã. Em Carvalho, há
notícia de um tear de tecer linho, em 1861. Com efeito, Luisa Maria,
natural desse lugar diz, no seu testamento que: " Deixo a minha
filha Luiza, ..., e a parte que me pertence no meu tear de tecer linho".
Os tecidos grosseiros saídos dos teares eram pisados no Pisão –
sistema hidráulico semelhante à azenha, tornando-os mais firmes e lisos.
Estes engenhos existiam normalmente junto às ribeiras.
Para a construção
das habitações recorria-se à matéria prima da região, nomeadamente o
xisto, para as paredes exteriores e à madeira de castanho para os
interiores. Para cobrir as habitações utilizaram-se as loisas –
lâminas de xisto e mais tarde a telha, que também aqui seria produzida.
Segundo a fonte já referida, existiam no concelho em 1875, cinco fornos
de telha. É possível que paralelamente ao fabrico da telha tivesse
ocorrido algum fabrico de louça de barro embora de qualidade grosseira.
O desenvolvimento
agrícola, florestal e pecuário conduziram naturalmente à actividade
comercial. O comércio do concelho foi essencialmente o azeite, a
aguardente de medronho, os cereais e carvão de hulha.
A castanha aqui
produzida em grande quantidade era certamente um dos produtos
comercializados.
As feiras para
comercialização de produtos só acontecem, provavelmente, no século
XIX.
Das mercadorias
importadas, apara além do pescado do mar, uma das que devia assumir algum
relevo era o sal, tão necessário para conservar os alimentos,
nomeadamente as carnes do porco que se matava anualmente.
Religião,
assistência e cultura
A Pampilhosa foi um
priorado que começou por ter uma única freguesia, com a sua igreja
paroquial e prior de apresentação do mosteiro de S.Pedro de Arganil.
Pertenceu ao bispado da Guarda desde tempos imemoriáveis, tendo-se
transferido para a diocese de Coimbra apenas em 1882. No termo, existia,
no século XVII, apenas a freguesia do Cabril, no século XVIII, a de
Pessegueiro e só no século XIX, as restantes que compõem actualmente o
concelho. As freguesias rurais encontravam-se anexas à igreja matriz,
cujo prior, de um modo geral, lhes apresentava o pároco.
Na Pampilhosa e no
termo existiram ao longo dos séculos várias associações locais,
nomeadamente confrarias ou irmandades, que testemunham a religiosidade dos
pampilhosenses. Estas associações tinham como finalidade promover o
culto público da divindade e da Virgem, ou a veneração dos santos da
particular devoção dos fregueses.
Encontram-se
documentadas as seguintes confrarias:
Na Vila:
- Santo
António
- Nossa
Senhora do Rosário
- Santíssimo
Sacramento, que durou pelo menos até 1911;
- Senhor e
Senhora do Pranto
No termo:
Dornelas do Zêzere
- Irmandade
das Almas. Está documentada num manuscrito datado de 1667 – bula
do Papa Clemente IX. Por ele, sabe-se que a confraria em questão é
a das Almas do Purgatório, que existia na freguesia desde tempos
muito antigos. Provavelmente anterior a 1604, uma vez que a doutrina
canónica sobre confrarias com fins pios, como é o caso desta é
anterior a 1604.
- Santissímo
Sacramento e das Almas. Dispõe de novos estatutos com data de 15
Outubro de 1942.
Fajão
- Irmandade de
Nossa Senhora da Assunção
- Santíssimo
Sacramento.
Pessegueiro:
- Confraria de S.
Simão
Unhais-o-Velho
- Santíssimo.
Vidual
- Irmandade do
Santíssimo
No que se refere à
Assistência teve a Pampilhosa Santa Casa da Misericórdia fundada no
século XVI, por iniciativa particular de Simão Pires que deixou os seus
bens para a fundação de uma capela(Capela da Misericórdia, situada na
Praça) que ainda existe e na qual o benemérito foi sepultado, no ano de
1600. Desde então e até aos nossos dias, esta casa tem sido a
Instituição assistencial Pampilhosense por excelência.
Teve também uma
Albergaria cuja data de fundação se desconhece. Sabe-se contudo, que a
administração passou para a Misericórdia por alvará de 29-11-1824. Com
efeito, com a doação perpétua dos bens da albergaria, a Misericórdia
passou a dispor de maiores benefícios. Simultaneamente, ocorreu um maior
apoio pecuniário quer por parte das pessoas mais gradas da terra quer de
outras, que embora de menores recursos tinham, no entanto, grande
devoção. Destacam-se entre os beneméritos de maiores posses Luís de
Melo Castelão de Brito Brandão, seu irmão Custódio de Melo, e seu
sobrinho o Padre António de Maria de Melo e Nápoles(natural de Góis,
mas com origem em Carvalho pelo lado materno); o sargento mor da
Pampilhosa Francisco Caetano das Neves e muitos dos seus descendentes e
parentes, nomeadamente, Francisco Caetano das Neves e Castro(Administrador
do concelho da Pampilhosa), Francisco Augusto das Neves e Castro (notável
jurisconsulto e escritor) e Eduardo César Vidigal das Neves e Castro
(poeta).
Foi provedor desta
instituição, ainda no século XIX, o prior da Pampilhosa Francisco
Inácio Freire (pároco da Pampilhosa nomeado por decreto de 6 de
Fevereiro de 1850), natural do lugar de Carvalho. A eleição deste
clérigo, em 1859, foi muito proveitosa para a Misericórdia, pois de 1860
a 1890 o número de inscritos atingiu as 8 dezenas. Na verdade, "este
homem, quer pela sua ascendência moral, quer pelo seu prestígio, era
muito querido e considerado pelos pampilhosenses do seu tempo".
Pertenceram também à Misericórdia Bento José Freire e o padre José
Freire Barata também naturais de Carvalho; os padres José Alves
Henriques de Carvalho, António Quaresma Caldeira e José Nunes Almeida,
todos eles também responsáveis pelo ensino na Pampilhosa.
A partir de 1890 a
Misericórdia entrou num acentuado declínio, que pode ser explicado, na
opinião do autor do artigo, por três razões: a primeira, "pela
acção do liberalismo contra as leis de desamortização, iniciada por
Mouzinho da Silveira", a segunda, prendeu-se com o facto dos
numerosos enfiteutas deixarem de pagar os seus foros e a terceira com o o
facto "dos pampilhosenses das aldeia periféricas deixarem de
participar na sua sustentação, quer pelo óbito dos irmãos,
precedentemente inscritos, quer pela falta de novos irmãos".
Por volta de
1933-1935, um grupo de pampilhosenses constituído por António Carlos de
Oliveira, Jaime Henriques da Cunha, Pompeu Alexandre das Neves, Porfírio
Carneiro, padre Aníbal Dias Pacheco e o Dr. Cipriano Nunes Barata tomou a
iniciativa de fazer ressurgir a velha Misericórdia do velho Município,
com novas características. Procedeu-se à inscrição de novos irmãos,
tendo-se obtido algumas dezenas de associados, tendo-se constituído a
primeira mesa que teve como provedor o Dr. Cipriano Nunes Barata. O
principal objectivo da nova instituição foi de dotar o concelho de um
hospital. Contudo as dificuldades a ultrapassar eram enormes e só
conseguidas à custa da persistência do grupo de restauradores da velha
instituição.
Educação e Ensino
No domínio do
ensino, os isolados serranos foram, durante séculos, na sua maioria
analfabetos, com excepção do clero e de um reduzido número de leigos.
Não havia
portanto escolas, excepto nos mosteiros e nas sés. Contudo, pouco se
ensinava. Os mestres não sabiam muito e o ensino era oral. O mestre
ditava a lição, que o aluno aprendia de cor. Ensinava-se em primeiro
lugar a ler e a escrever o latim que a partir do século XII, já ninguém
falava. D. Dinis tornou o português língua oficial.
A partir do século
XVI, as escolas multiplicaram-se, embora existisse apenas um mestre em
cada povoação importante. No caso específico da Pampilhosa, temos
conhecimento, nos finais do século XVIII, da existência de um professor
de Gramática Latina. Chamava-se António David Leitão e fora nomeado por
D. Maria II, em 1779. Nas restantes freguesias do concelho, é possível
que, embora sem carácter obrigatório, fossem os párocos que iniciassem
alguns dos seus paroquianos mais interessados, na arte da leitura e da
escrita.
No século XIX,
conhecem-se os nomes de alguns professores primários, nomeadamente os de
José Alves Henriques de Carvalho e de José Nunes Almeida, ambos
sacerdotes. O primeiro, exerceu na Pampilhosa até 1834, altura em que foi
demitido por ordem superior, tendo sido provido interinamente José Nunes
de Almeida. A demissão, por motivos obviamente políticos é declarada
nos seguintes termos: "tendo
sido nos fins do mês de setembro demitido o professor da cadeira de
primeiras letras d’esta villa, o padre José Alves Henriques de
Carvalho, por desafecto à Real Pessoa de Sua magestade e inimigo das
instituições liberais...".
José Nunes Almeida
foi então nomeado professor da cadeira de ensino Primário da Pampilhosa
em 27/7/1842 e viria a ser jubilado como professor público primário da
Pampilhosa em 22 de Fevereiro de 1866. Mais tarde, em 4 de Agosto de 1851,
foi nomeado professor da cadeira de Gramática Portuguesa e Latina, e de
Latinidade do Concelho da Pampilhosa, António Quaresma Caldeira.
Apesar do ensino ter
sido, durante o século XIX, uma actividade rara neste concelho, é, no
entanto, possível
assegurar que a aldeia de Carvalho terá sido uma excepção. Com efeito,
os carvalhenses foram na verdade privilegiados, pois tiveram acesso à
instrução e muitos dos homens aí moradores sabiam ler e escrever. Esta
situação prende-se certamente com o facto de alguns dos padres naturais
de Carvalho terem aí fixado a sua residência. São exemplos os
reverendos Francisco Inácio Freire e José Freire Barata.
No final do século
XIX, início do século XX, o povo de Carvalho teve contrato com um
professor particular que aí ensinou as primeiras letras até à
regulamentação da instrução primária, quando o exercício do ensino
particular foi proibido a todas as pessoas que não estivessem legalmente
habilitadas.
No início do
século XX, já muitas povoações do concelho tinham a sua escola
primária, nomeadamente, a Pampilhosa, Pessegueiro, Carvalho, Fajão e
Praçais. Na verdade, no jornal O Serrano, de 1907 pode ler-se a
dado passo: "Fizeram exame do primeiro grau, ficando aprovados 8
alunos da escola de Pecegueiro, 3 da de Carvalho, 5 da da Pampilhosa, 1 da
de Fajão e 1 da de Praçaes". Repare-se que neste texto apenas
são referenciadas 3 freguesias e duas povoações, Carvalho e Praçais
pertencentes, respectivamente às freguesias da Pampilhosa e do Cabril.
|