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Manuel dos Santos Graça

1911 – 1998

 

Se há homens com propensão para servir, para ajudar o semelhante, dedicada e desinteressadamente, e que deixam marca por onde passam, Manuel dos Santos Graça foi um deles.

Nasceu em Ceiroquinho, em 2 de Julho de 1911, mas cedo teve de abandonar o torrão natal, por falecimento de sua mãe. Apenas com 11 anos e amparado pelo irmão mais velho, Alberto, relojoeiro famoso na região,, obtém o seu primeiro emprego nos trabalhos da lavoura, em casa da família Mascarenhas, de Folques.

Volvidos alguns anos, procura a sua sorte em Lisboa, onde já se encontravam seu irmão António e o primo Manuel Alves, percorrendo alguns empregos de curta duração, até partir para França – Sèvres -, em busca de melhor futuro. Também aqui a fortuna se mostrou adversa, pois sofreu um grave acidente de viação e regressou a Portugal, até porque o aguardava o serviço militar.

Em 1938, com a obtenção da carta de condução, rasgam-se-lhe novos horizontes, pois consegue emprego duradouro, como motorista, ao serviço da firma "Bertrand e Irmão Lda", donde transita mais tarde para a empresa de máquinas tipográficas "Manuel Reis Morais & Irmão", que serviu até à reforma. Em 1943, contraiu matrimónio com D. Maria da Luz Almeida (que poucos meses sobreviveu), natural de Cepos, união de que veio a nascer um único filho, Victor Almeida Santos, que os brindou com dois netos, a Sónia e o Tiago, cujos progressos escolares até às licenciaturas, pode ainda o avô, orgulhoso, acompanhar.

Mas falemos de Santos Graça, como homem e como regionalista. Era uma pessoa simples, que nunca frequentou uma escola, mas sabia ler, escrever e contar, de trato afável e grande afectividade humana, um conversador fluente, tanto em prosa como em verso.

Conhecedor das carências da sua aldeia natal e de todas as outras da região, cedo ingressou no movimento regionalista, que abraçou e serviu devotadamente como sua cruzada, em que viria a ser destacado e respeitado dirigente, desempenhando os mais variados cargos, ao serviço de 14 associações, entre elas a Casa Concelhia. Aqui, estreou-se como Vice-presidente da Direcção, em 1950, foi Secretário do Conselho Fiscal, em 1951, e Presidente de 1953 a 1955. De 1961 a 1964, desempenhou o cargo de Presidente da Direcção, e de 1967 a 1974, foi Presidente da Assembleia Geral.

Tivemos o privilégio de integrar o seu elenco directivo na Casa, em 1961, e muito aprendemos com ele. Era metódico, organizado, apresentando sempre uma ordem de trabalhos. Auscultava os colegas, um de cada vez, sobre as várias alíneas e reservava a sua opinião para o final, para não influenciar as opiniões individuais. Nas cerimónias e sessões de trabalho alargadas, era um orador fluente e brilhante, com intervenções pertinentes e apaziguadoras, gerador de consensos, com terminologia apropriada, muito acima do seu nível de instrução, adquirida na escola da vida e baseada no bom senso e nas virtudes humanas. Possuidor de espírito criativo, a ele se devem os símbolos das bandeiras de algumas associações em que militou como dirigente.

Não dispondo de outros rendimentos, além do seu modesto ordenado, para sustento da família, teve que fazer alguns sacrifícios para pagar as suas quotas nas diversas colectividades de que era associado, e para pagar outras despesas inerentes à sua função de dirigente, dando verdadeiro exemplo de solidariedade e demonstrando que muito pode quem quer. A ele se devem alguns dos tijolos, sacos de cimento e ferro aplicados em pontes, chafarizes, aquedutos, capelas, centros de convívio e outras realizações de natureza recreativa e de assistência, em muitas das povoações do nosso concelho.

Como dirigente regionalista, criou amizades, granjeou admiração e respeito, fez escola e teve muitos discípulos que, seguindo os exemplos do Mestre, vieram a prestar também bons serviços.

Manuel do Santos Graça foi um Homem e um Regionalista, com maiúscula, cuja memória e saudosa lembrança perdura naqueles que tiveram a dita de privar com ele. Que o seu exemplo de partilha e de doação ao próximo tenha muitos seguidores e que Deus o tenha no lugar que merece.

 

António Lourenço

 

(publicado no Nº 2 de Serras da Pampilhosa de Agosto de 1999)