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José Bernardo das Neves

1925 – 1998

O Regionalismo, movimento tipicamente serrano, é por natureza um movimento restrito e, mesmo, algo fechado sobre si mesmo. É, no fundo, o espelho visível do carácter beirão, gente pouco expansiva, lutadora e decidida, que, fruto da natureza hostil e avara que a rodeia e lhe molda o espírito, aprendeu a sofrer em silêncio, aceitando as adversidades quase como uma fatalidade do destino.

Não é, pois, de estranhar que, de forma algo envergonhada, escondida e apenas circunscrita a alguns dirigentes mais jovens, se comece a questionar o Regionalismo. Não o seu ideal nobre ou a importância capital de muitas obras que edificou, mas sim o seu futuro e principalmente os caminhos que deve trilhar para "prender" os actuais dirigentes e motivar gente nova, gente disposta a manter acesa a chama deste ideal bonito, único e profundamente humanista.

Precisamente, porque atenta ao aparecimento destes ventos de mudança, a Direcção da Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra decidiu lançar este projecto, esperando que ele se revele um amplo espaço de debate, onde todos possam livremente expressar a sua opinião e apresentar ideias renovadoras. Todavia, esta renovação, que os tempos actuais reclamam necessária, deve ser feita com base na nossa história. Uma história singular e que, justificadamente, representa o orgulho de todos os que tiveram o privilégio de nela participar, pois exalta uma das mais belas qualidades do ser humano: a solidariedade.

Sendo, portanto, um dos objectivos deste projecto a divulgação da nossa história e como a história – qualquer que ela seja – é feita por homens, torna-se evidente que uma das formas de a fazer, é lembrar as pessoas que, de forma indelével, marcaram este movimento. É verdade, esta coluna deverá (é obrigatório que assim seja) ser entregue a um regionalista experimentado, com vivência feita neste meio, conhecedor das vicissitudes porque passou o regionalismo pampilhosense, mas como, até ao momento em que encerrámos esta edição, ninguém subscreveu tal compromisso, ele é assumido em nome de um projecto, em nome de uma direcção. Embora reconhecendo tratar-se de uma dupla desvantagem, pois à falta de engenho deve acrescentar-se a diferença de uma geração, assumo plenamente o desafio, porque essa seria – estou em crer – a postura de um verdadeiro regionalista.

Para abrir este espaço que, esperamos, se torne uma inesgotável fonte para a sede de conhecimento dos actuais e futuros regionalistas, escolhemos uma figura verdadeiramente ímpar e cujo primeiro aniversário sobre o seu falecimento ocorrerá no próximo mês de Julho, o Sr. José Bernardo das Neves.

Este homem que, pessoalmente, só conheci no início da década de oitenta, nasceu no Vale Serrão a 17 de Agosto de 1925. Com apenas dezasseis anos de idade já trabalhava arduamente nas ruas de Lisboa e nos finais da década de quarenta dava os seus primeiros passos no regionalismo, onde se manteve activo até ao dia da sua morte, que aconteceu a 8 de Julho de 1998. Foi meio século dedicado a uma causa, a um ideal, a uma forma de ser Homem.

O seu aspecto não era propriamente o paradigma das características que definem o homem-beirão, com efeito, o seu porte, a sua altivez e frontalidade impressionavam qualquer um; no entanto, no mais profundo do seu íntimo, lá estavam bem presentes a capacidade de sofrimento, a força para lutar e a coragem para nunca desistir. Foram estas características que fizeram dele um verdadeiro regionalista e não apenas um bairrista que amava a sua aldeia.

Evidentemente, o Vale Serrão deve-lhe muito, fundou a sua União Progressiva e, de uma forma ou de outra, esteve ligado a todos os melhoramentos aí realizados, porém a nível concelhio a sua acção foi igualmente notório e bem sucedida. Embora, apoiantes incondicionais da teoria "ninguém é insubstituível", acreditamos que as obras, onde a acção de José Bernardo se fez sentir, ter-se-iam realizado na mesma, mas sê-lo-iam, certamente, de modo diferente e muito mais arrastadas no tempo. É esta capacidade de alterar o curso da história, que distingue as grandes figuras das restantes. E José Bernardo foi grande!

No âmbito desta coluna, não cabe, obviamente, a análise específica ao trabalho desenvolvido em prol da sua aldeia, pois, tal diz respeito unicamente ao Vale Serrão e à sua gente. Porém, a sua actividade, enquanto regionalista, teve um carácter mais lato e abrangeu áreas nucleares à consolidação deste movimento. Desde 1948 e até ao momento da sua reforma, que aconteceu no início da década de oitenta, fez parte de todos os corpos gerentes que passaram por esta Casa, tendo inclusivé assumido a presidência da Direcção no biénio de 1965-1966.

Após a reforma, regressou ao seu lugar de eleição, ao "seu" Vale Serrão para continuar uma actividade frenética sempre em prol do desenvolvimento do nosso concelho. Aí, desempenhou altas funções, tanto na Assembleia Municipal como na Santa Casa da Misericórdia. Ainda conseguiu tempo para ser dirigente dos Bombeiros Voluntários e do Grupo Desportivo Pampilhosense, mas a sua disponibilidade ainda foi visível em muitas acções de apoio a actividades da Igreja.

Ao longo deste meio século dedicado ao regionalismo, a acção de José Bernardo foi particularmente notada na execução de duas importantes obras que ajudaram a rasgar o isolamento do nosso concelho: a construção da estrada 344 e a ponte de Álvaro. Bastariam estas realizações para que, a José Bernardo, fosse atribuído um lugar de destaque, porém a sua obra não se estendeu unicamente a este particular. Na verdade, o regionalismo não se resume à execução de obras, é, igualmente, um vasto campo de exemplos e de convicções. Mas, também nestas áreas José Bernardo foi grande e decisivo.

O seu exemplo, para quem o não conheceu, é fácil de explicar. Não sendo um homem abastado, tinha obviamente que trabalhar para garantir o seu sustento e da sua família, mas, como todos sabem, naquele tempo os ordenados eram baixos, o que obrigava muita gente a ter dois empregos. Era o caso da personalidade aqui recordada, que durante o dia era funcionário dos antigos Correios e, parte da noite, era colaborador do extinto jornal "O Século". Pois bem, hoje, quando muitos justificam as suas ausências e menor empenho nas actividades regionalistas com a falta de tempo, não deixa de ser curioso lembrar o exemplo de homens como José Bernardo. Relativamente às suas convicções, recordemos o papel fundamental que desempenhou na restauração dos mais puros ideais regionalistas, quando, fruto da época revolucionária que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, alguns pretenderam desvirtuá-los ao introduzir-lhes uma determinada carga ideológica. Nesse tempo bem difícil, de forma decidida, destemida e com grande frontalidade ajudou à manutenção da pureza do nosso ideal e que terá, porventura, evitado o seu desaparecimento a curto prazo.

Por tudo isto, pensamos, José Bernardo merece ser lembrado e, sem favores, merece inaugurar este espaço.

Como qualquer outro homem, tinha defeitos e qualidades, mas claramente estas suplantavam aqueles. Gostava do seu petisco e de uma boa pinga; vibrava com as festas, dançava e mandava como poucos; leilões era a sua especialidade; era jogador de sueca (quando perdia era um problema!); estava sempre pronto para ajudar outras comissões e comparecia com frequência às suas realizações; exultava com os eventos promovidos pela sua aldeia. Mas, não é isto o verdadeiro e genuíno beirão? Este conjunto de características não identifica imediatamente a nossa gente?

Mas, é claro que sim.

Morreu o ano passado, porém, ainda hoje a sua falta é sentida por todos aqueles que tem o regionalismo no coração. Foi-se o homem, mas a sua obra permanece viva e sabemos que, onde quer que esteja (acreditamos que só pode estar num sítio bom), continua a apoiar aqueles que não deixam de lutar pelo seu sonho: um concelho cada vez melhor e mais desenvolvido.

Em jeito de post scriptum, apenas uma simples nota, homens como José Bernardo trabalharam para esta causa, sem dela esperar honrarias ou agradecimentos, porém entendemos que o Regionalismo tem para com ele uma enorme dívida que importa saldar rapidamente: o filho de José Bernardo foi, em tempos, um dos mais promissores dirigentes regionalistas e afastou-se por discordar da forma como se "fazia" regionalismo; está, então, na hora deste movimento se regenerar e trazer de volta ao seu seio o legado físico de José Bernardo. Só, assim, todas as contas ficariam definitivamente saldadas.

 

(publicado no Nº 0 de Serras da Pampilhosa de Junho de 1999)